Mobilidade urbana e envelhecimento: políticas intersetoriais devem garantir saúde e participação cidadã de pessoas idosas

(Imagem: Ascom/Fiocruz PE)
(Imagem: Ascom/Fiocruz PE)
Maioria dos idosos precisa de ajuda para sair de casa
(Imagem: Ascom/Fiocruz PE)

O termo “mobilidade” está na ordem do dia, seja na imprensa, nas agendas públicas ou no meio científico e tem se aplicado a abordagens e contextos diversos. Esse termo se relaciona com dois outros: acesso e acessibilidade, também com diferentes possibilidades de uso. Consenso há no fato de que mobilidade é condição para as pessoas acessarem os diferentes bens e serviços de uma cidade. Quanto maior e mais complexa a cidade, mais essa condição se impõe entre os tantos desafios na administração das cidades. Esta necessidade de acesso está presente para todos os seguimentos populacionais. No entanto, os mais vulneráveis correm o risco de serem excluídos da maioria desses bens e serviços disponíveis nas metrópoles.

Os moradores mais velhos das grandes cidades cada vez mais numerosos, devido ao envelhecimento populacional, e, cada dia mais participativos, demandam políticas públicas que respondam às suas necessidades e seu direito de praticar a cidade de forma segura, através de ações inclusivas. Pensar em uma cidade amigável e acolhedora para quem nela envelhece e para quem já é idoso foi a principal motivação da tese de doutorado intitulada “Envelhecimento, mobilidade urbana e saúde: um estudo da população idosa” (Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública/CPqAM-Fiocruz).

Na pesquisa foi abordada a relação entre o envelhecimento, a mobilidade urbana e as condições de saúde em uma população idosa residente em Recife/PE. Foram estudados 1.200 homens e mulheres com 65 anos ou mais, em 56 bairros distribuídos nos seis distritos sanitários da cidade. Foram analisados: o perfil social, demográfico e epidemiológico, a capacidade funcional através da autonomia e independência para o desempenho das Atividades de Vida Diária, a mobilidade dos idosos na cidade (acesso aos lugares e modos de deslocamento utilizados), as condições de saúde e o acesso e a utilização dos serviços e ações de saúde.

Os resultados dão conta de um grupo com maioria de mulheres idosas, com baixa escolaridade, com maior percentual de viuvez, residindo em domicílios multigeracionais e com renda proveniente de aposentadoria e/ou pensão. São pessoas idosas com uma percepção positiva do seu estado de saúde e com boa capacidade funcional. Destacando aspectos relativos à mobilidade urbana, ou seja, ao deslocamento do grupo na cidade, pode-se observar que a maioria não necessita de ajuda de terceiros para sair de casa quando quer ou precisa e, ainda, que os modos mais comuns de deslocamento são andar a pé ou de ônibus.

O principal motivo referido pelas pessoas idosas moradoras do Recife para saírem de suas casas é a ida a serviços de saúde, seguido da ida ao banco e ao supermercado. As atividades culturais e de lazer são pouco referidas. Essa parcela da população quase não frequenta os parques e as praças da cidade. Consideram o Recife uma cidade pouco acessível e insegura. Esse depoimento é relativo, por exemplo, às condições inadequadas das calçadas, ao desrespeito pelo pedestre no trânsito como o tempo curto dos sinais para fazer a travessia das ruas, à inadequação dos meios de transporte público, especialmente os ônibus quanto a horários e freqüência e também aos motoristas que se recusam a parar nos pontos para que os idosos embarquem, além da população em geral que também não respeita os assentos reservados aos idosos. O aspecto positivo relatado foi o fato de haver pontos de ônibus próximos às suas residências. No entanto, nestes há ausência de bancos de descanso. Os idosos também destacam deficiências quanto à iluminação e à segurança pública.

O envelhecimento populacional associado à urbanização crescente constitui-se num duplo desafio, planejar as condições de mobilidade das grandes cidades e considerar seu contingente de idosos e suas vicissitudes. Portanto, garantir, através de políticas públicas intersetoriais, a mobilidade das pessoas no espaço urbano é promover capacidade funcional e saúde e favorecer a participação cidadã das pessoas idosas no cotidiano da cidade.

O trabalho completo pode ser conferido aqui.

Referência Bibliográfica

Barreto KML. Envelhecimento, mobilidade urbana e saúde: um estudo da população idosa [tese de doutorado]. Recife: Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz; 2012. [acesso em 17 set 2013]. Disponível em: http://www.cpqam.fiocruz.br/bibpdf/2012barreto-kml.pdf

 

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