Número de ciclistas acidentados no trânsito ultrapassa 10% do total de atendidos em emergência no país

O Brasil possui a sexta maior frota de bicicletas do mundo, sendo o veículo de transporte individual mais utilizado no país. São aproximadamente 48 milhões de bicicletas, ficando o Brasil atrás apenas de China, Índia, Estados Unidos da América, Japão e Alemanha. As bicicletas dividem com o modo pedestre a maioria dos deslocamentos normais de 90% do total de municípios brasileiros. Apesar dessa realidade, a infraestrutura necessária para o uso das bicicletas no país não está disponível em todos os locais. Poucos estudos, porém, abordam a temática envolvendo os acidentes com ciclistas, bem como os fatores que colaboram ou evitam essa ocorrência. Menos ainda se sabe sobre acidentes de trânsito envolvendo ciclistas, apesar de serem frequentes em vários países, causando mortes e incapacidades, principalmente em crianças e adultos jovens. Sobre o tema, os pesquisadores da ENSP Carlos Augusto Moreira de Sousa e Patrícia Constantino; e Camila Alves Bahia, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, produziram o artigo Análise dos fatores associados aos acidentes de trânsito envolvendo ciclistas atendidos nas capitais brasileiras, em que apontam o fato de que, em 86 serviços de urgência e emergência do Brasil, foram contabilizados 55.950 atendimentos em 2014, e os acidentes configuram 15.499 deles, dos quais 1.652 referem-se aos ciclistas, representando 10,7% do total por tipo de transporte. Apesar dos achados e das vulnerabilidades encontradas no estudo, informam os pesquisadores, a bicicleta é considerada um dos meios de transporte mais saudáveis (se garantidos todos os aspectos de segurança), pois pode trazer diversos efeitos positivos para a saúde da população, como a redução da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis.

 A pesquisa utilizou o VIVA inquérito, realizado em 2014, que compõe o Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes do Ministério da Saúde e tem como objetivo analisar a tendência e descrever o perfil das violências (interpessoais ou autoprovocadas) e dos acidentes (trânsito, quedas, queimaduras, dentre outros) atendidos em unidades de urgência e emergência do Brasil.

 Esse inquérito incluiu os atendimentos realizados em serviços de urgência e emergência situados em 24 capitais e no Distrito Federal, além de 11 municípios selecionados. No artigo, somente as capitais componentes do VIVA inquérito foram consideradas na análise, por concentrarem a maior parte dos atendimentos das vítimas de acidentes e violências, totalizando 86 serviços de urgência e emergência, e contabilizando 55.950 atendimentos. Os acidentes configuram 15.499 atendimentos, dos quais 1.652 referem-se aos ciclistas, representando 10,7% do total por tipo de transporte.

 De acordo com o estudo, dos 1.652 atendimentos a ciclistas, 75,1% (1.241) eram do sexo masculino; em relação à faixa etária, 28% (463) tinham entre 20 e 39 anos, 26,5% (437) entre 10 e 19 anos, e 21,7% (358) entre 0 e 9 anos. No tocante à raça/cor, 63,4% (1.047) eram pardos. A escolaridade referida foi de 0 a 4 anos em 37,2% (615) das vítimas, seguido de 5 a 8 anos em 21,7% (359). Não possuíam algum tipo de deficiência 95,3% (42) das vítimas. As capitais que tiveram as maiores proporções de atendimentos por acidentes de transporte terrestre envolvendo ciclistas foram Boa Vista (11,1% −184) e Brasília (6% – 99), e as que tiveram as menores foram Belo Horizonte (1,3% – 21) e Salvador (1,5% – 24). Quanto à zona de ocorrência, 93,8% (1.550) ocorreram na zona urbana ou periurbana dessas capitais.

 Esses ciclistas colidiram com um automóvel em 23,2% (383) dos casos e contra uma motocicleta em 13,2% (218) dos casos. Em 87,2% (1.440) desses casos, a vítima era o condutor da bicicleta, que, em 90,5% (1.495) das vezes, não utilizava nenhum equipamento de segurança no momento do acidente. A vítima referiu uso de álcool nas seis horas anteriores à ocorrência em 10,8% (178) desses acidentes, os quais, em 17,1% (282) das vezes, ocorreram no trajeto para o trabalho. A natureza da lesão foi corte/laceração em 39,3% (649), e entorse/luxação em 15,9% (263). Dos ciclistas acidentados, 31,5% (521) tiveram os membros inferiores atingidos, enquanto 20,9% (346) os superiores. Em 17,3% (286) desses casos, múltiplos órgãos/regiões do corpo foram atingidos. Em 40% (661), o atendimento ocorreu no período da tarde, e em 30,6% (506) no da manhã; 47,8% (790) dos acidentados foram atendidos entre segunda e quarta-feira; com 73,1% (1.208) evoluindo para alta e 11,1% (183) para internação hospitalar.

 Para a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, a vulnerabilidade dos ciclistas, em parte, ocorre porque bicicletas são veículos híbridos, os quais ora transitam como os demais, ora como pedestres, disputando com estes o espaço das calçadas. O trânsito compartilhado das bicicletas com veículos automotores é apontado como o principal fator de insegurança, facilitando a ocorrência de acidentes. Esse dado foi reiterado no presente estudo, em que os principais acidentes se referem à colisão de bicicletas contra automóveis.

 Os achados do estudo acentuam a necessidade de discussões sobre ações para diminuir as ocorrências de acidentes de trânsito envolvendo ciclistas, apontam os pesquisadores. “Tais medidas incluem propostas mais amplas como a reavaliação de políticas públicas que estimulam o transporte individual em automóveis, até intervenções específicas, como a criação de espaços seguros para o lazer, de programas educativos para a população em geral e a melhoria da fiscalização das leis de trânsito. Outro fator que poderia levar à diminuição desses acidentes é o uso de equipamentos de segurança”, concluem.

artigo foi publicado na edição de dezembro de 2016 da revista Cadernos de Saúde Pública (vol.21 no.12)

 

 

Por Informe Ensp . 27/12/2016

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