Pesquisa relaciona dor dental e locais com maior desigualdade social

(Imagem: Bianca Santiago)
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Pesquisa de campo foi realizada em Pedras de Fogo, Conde e Cabedelo, na Paraíba
(Imagem: Bianca Santiago)

Uma pesquisa pioneira, realizada na Paraíba, pode colaborar com a concretização de uma realidade com menos desigualdades para a saúde coletiva no Nordeste e até mesmo no Brasil. O trabalho, que reúne resultados de dois estudos, revelou a associação entre desigualdades sociais e dor dental, mostrando que a chance de relatar dor dentária foi 52% menor nos indivíduos residentes em áreas com alto capital social de vizinhança, quando comparados com aqueles que residem em áreas de baixo capital social de vizinhança. Os resultados apontam ainda que a chance de relatar dor dentária é 3,46 e 4,5 vezes maior em escolares que residem, respectivamente, na segunda e na quarta áreas com maiores taxas de homicídios de João Pessoa, capital paraibana.

O trabalho, realizado pela odontóloga e professora adjunta da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Bianca Santiago também revelou uma associação inversa entre empowerment da vizinhança (emponderamento, conscientização e ação coletiva) e alta incidência de cárie. “Os achados mais interessantes foram as associações significativas entre características do local de residência dos participantes, tais como taxa de homicídio, capital social de vizinhança e empowerment de vizinhança, com a dor dentária e a cárie”, explica a pesquisadora.

O projeto foi apresentado como tese de doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz) na forma de três artigos, que tinham como objetivo compreender a saúde bucal dentro da perspectiva da determinação social. O primeiro artigo foi fruto de uma análise de dados secundários, obtidos a partir do Levantamento das Condições de Saúde Bucal de João Pessoa, capital paraibana, realizado no ano de 2008. Neste primeiro momento foram usados dados obtidos por meio de exames clínicos e entrevistas, realizados com alunos de escolas localizadas nos cinco distritos sanitários da cidade. As informações foram correlacionadas com a taxa de homicídio, característica do contexto social dos escolares escolhida como determinante social para o estudo.

Para a construção do segundo e terceiro artigos foram três cidades da Paraíba foram sorteadas aleatoriamente: Pedras de Fogo, Conde e Cabedelo, onde um inquérito mais amplo foi realizado. A pesquisa de campo, executada entre 2010 e 2011 pelo Grupo de Pesquisa em Odontopediatria e Clínica Integrada (GPOCI), seguiu o modelo de levantamento proposto pelo Ministério da Saúde para o Levantamento Nacional de Saúde Bucal (SBBrasil) de 2010. Nesta etapa, o inquérito foi de base domiciliar e os indivíduos foram examinados e entrevistados em suas próprias casas – com a abordagem do capital social individual e de vizinhança – a partir da divisão de três faixas etárias: adolescentes (15-19 anos), adultos (35-44 anos) e idosos (65-74 anos).

Os resultados obtidos na pesquisa e seus possíveis desdobramentos podem contribuir para reflexão do quadro da saúde bucal não apenas na região Nordeste, mas para o Brasil e, talvez, até fora do país. “Durante a defesa da tese um dos membros da banca mencionou que a generalização dos nossos achados poderia ser feita não somente para o Brasil, mas também para outros países e regiões na qual as iniquidades sociais se façam presentes”, explica Bianca Santiago. Ela espera que sua tese contribua com o processo de diminuição das diferenças nas condições de saúde no Brasil.

Para a pesquisadora, a intersetorialidade e a articulação do setor saúde com as mais diversas áreas e diferentes níveis de gestão são indispensáveis para a concretização de uma realidade mais justa e equilibrada. “A maior resolutividade das políticas públicas em saúde bucal depende de reformulações, de redirecionamentos e de ampliações. Em outras palavras, as intervenções e estratégias precisam ser voltadas não apenas para mudanças nos comportamentos e hábitos individuais. Modificações na estrutura física e social onde as pessoas vivem e trabalham são necessárias para favorecer as escolhas saudáveis dos indivíduos, ou seja, tornar essas escolhas mais fáceis e mais acessíveis”, acrescenta.

Após a conclusão do estudo, a professora Bianca Santiago segue atuando na ampliação do trabalho, com novos focos e novas maneiras de observar a questão da saúde bucal na ótica da determinação social. O GPOCI da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Paraíba, do qual ela faz parte, continuará desenvolvendo pesquisas na área, incluindo projetos de iniciação científica e trabalhos de conclusão de curso além de outros trabalhos que serão apresentados em eventos científicos ainda esse ano. “Esperamos que essas informações possam contribuir para a tomada de decisão das gestões no momento da (re)estruturação da atenção a saúde bucal e para a elaboração de políticas públicas que tenham como foco a redução das iniquidades em saúde”, conclui.

Referência Bibliográfica

Santiago BM. Iniquidades sociais, capital social e condições de saúde bucal no estado da Paraíba [tese de doutorado]. Rio de Janeiro: ENSP/FIOCRUZ; 2013.

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