Estudo revela que Bolsa Família reduz risco de morte em 18% em vítimas de violência interpessoal

Indivíduos que sofrerem esse tipo de violência após serem inseridos no programa foram os mais beneficiados, com redução para morte de causas naturais.   

A violência interpessoal é um problema de saúde pública multifatorial que abrange uma ampla gama de contextos e manifestações relacionadas, caracterizada por ser contra outra pessoa ou grupo/comunidade.  

A influência desse tipo de violência na vida de quem a sofre despertou o interesse de pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), em parceria com a Universidade de Harvard. O estudo realizado pelo grupo indica que o recebimento do Programa Bolsa Família tem poder de mitigar o risco de morte para seus beneficiários que foram vítimas de violência interpessoal.  Os resultados foram publicados na PLOS Medicine. 

Já foi mostrado em estudos anteriores que esse tipo de violência pode aumentar o risco de suicídio em jovens, principalmente indígenas, assim como outros estudos mostraram que programas de transferência de renda têm sido associados com a queda no risco de suicídio de quem sofreu violência 

Baseado nesses achados anteriores que mostram o risco aumentado para aqueles que sofrem esse tipo de violência, a pesquisa utilizou dados da Coorte dos 100 Milhões de Brasileiros do Cidacs, vinculados a dados administrativos de saúde derivados do Sistema de Internação Hospitalar (SIH), Sistema de Notificação de Agravos de Notificação (SINAN) e Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM).  

Foram incluídos todos os indivíduos com histórico de violência interpessoal após registro no Cadastro Único (CadÚnico), sistema que permite a integração do cidadão aos programas sociais, durante o período do estudo.

Os números da redução 

O Bolsa Família reduziu em 18% a mortalidade geral, em 66% a mortalidade por causas naturais e em 10% as causas não naturais, ainda que esta última não tenha apresentado uma diferença estatisticamente significante. A análise estratificada por sexo mostrou que o programa reduziu a mortalidade principalmente entre as mulheres, incluindo tanto a mortalidade por todas as causas (58%), quanto a mortalidade por causas naturais (39%), enquanto entre os homens, a redução foi observada apenas para causas naturais (31%).  

Verificou-se que a associação entre a participação no Programa Bolsa Família e redução da mortalidade, especialmente por causas naturais, entre vítimas de violência interpessoal, destacando que esses programas podem estar associados à redução da pobreza, à melhora dos desfechos em saúde e ao aumento da sobrevida em populações vulneráveis. 

A hipótese levantada pelo estudo foi de que a redução da mortalidade poderia ocorrer por meio da melhoria do acesso aos serviços de saúde e da mitigação das respostas fisiológicas ao estresse decorrente da violência, bem como pela facilitação do encaminhamento a outros programas de proteção social, promovendo a inclusão social, melhores condições de vida e melhoria da saúde física e mental, de acordo com Camila Bonfim, pesquisadora associada do Cidacs que liderou estudo. 

“Nossos achados revelaram a potencial contribuição que um programa como o Bolsa Família como uma política pública para prevenir consequências negativas à saúde relacionadas à violência interpessoal, em uma população específica com maior vulnerabilidade devido à condição de pobreza e à vitimização por violência.” 

Pesquisador(es): Camila BonfimFlávia Jôse AlvesMauricio BarretoVikram PatelDaiane Machado.

Periódico: PLOS Medicine

Ano de publicação: 2026

 

Por Jéssica Guanabara – Cidacs/Fiocruz Bahia . 16/06/2026 

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