Estudo experimental avalia condição da água nos biomas brasileiros

Foto: Helena Pontes/Agência IBGE Notícias

Resumo:

  • O trabalho compõe o Sistema de Contas Econômicas Ambientais do IBGE, que segue as recomendações das Nações Unidas (ONU) para promover a integração dos benefícios gerados pela natureza às Contas Nacionais.
  • A análise das condições dos corpos hídricos traz indicadores sobre a captação direta de água do ambiente, estados químico e físico da água, além da proporção de espécies aquáticas ameaçadas de extinção, com recorte pelos biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa) entre 2010 e 2017.
  • A Mata Atlântica, que em 2010 representava 42% da retirada de água, passou a 39% em 2017, foi o bioma em que se verificou a maior captação de água, com destaque para o abastecimento urbano, dada a grande concentração da população brasileira nesse bioma.
  • A avaliação do estado químico da água foi realizada a partir de cinco indicadores que devem ser avaliados em conjunto: Oxigênio Dissolvido, Presença da bactéria Escherichia Coli, Demanda Bioquímica de Oxigênio, Turbidez e Presença de Fósforo. Essas variáveis foram captadas em pontos de monitoramento em rios, córregos e outros em que há correntes (corpos hídricos lóticos) e em lagos, lagoas e açudes (corpos hídricos lênticos) nos biomas.
  • Em 2017, o Oxigênio Dissolvido nos pontos de monitoramento estava com bons níveis, acima de 70%, em todos os biomas, com exceção do Pantanal, em que passou de 42% em 2010 para 56% nos rios e córregos. Esse indicador garante a presença da vida nos rios e lagos.
  • A proporção de pontos com níveis aceitáveis de bactéria Escherichia coli na Amazônia aumentou de 79% para 87% entre 2010 e 2017. Já no Cerrado verificou-se queda de 72% para 60% nos rios e córregos. No Pantanal, passou de 63% para 100%. A presença dessa bactéria é um importante indicador de contaminação fecal, um risco à saúde humana.
  • A Demanda Bioquímica de Oxigênio teve queda significativa em sete anos (de 99% para 47%) nas lagoas e açudes da Caatinga. Esse indicador avalia a poluição das águas por esgotos e representa a quantidade necessária do elemento para oxidar a matéria orgânica presente na água.
  • A maioria das microbacias apresentou condições excelentes quanto à relação entre as captações de água e a sua disponibilidade, o chamado balanço hídrico, mas nos biomas Caatinga e Pampa, a maioria das análises das microbacias apresentou condição muito crítica (44% e 34%, respectivamente).

O IBGE divulga hoje (15) as Contas de Ecossistemas: Condição dos Corpos Hídricos, estatísticas experimentais que trazem indicadores como captação direta de água do ambiente, estados químico e físico da água, além da proporção de espécies aquáticas ameaçadas de extinção, com recorte pelos biomas brasileiros, retratando sua dinâmica ambiental entre 2010 e 2017. O estudo, que contou com a colaboração da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), também traz um balanço hídrico quantitativo e qualitativo das microbacias dos biomas, compilando informações de diferentes bases de dados, tendo como ano de referência 2016.

Essas estatísticas compõem o Sistema de Contas Econômicas Ambientais, que segue as recomendações das Nações Unidas (ONU), para promover a integração dos benefícios gerados pela natureza ao Sistema de Contas Nacionais. Os dados são classificados como experimentais, pois se encontram em fase de teste e avaliação.

“Na metodologia do Sistema de Contas Nacionais, alguns recursos naturais são computados direta ou indiretamente como ativos ambientais econômicos. Mas, existe uma gama enorme de benefícios que são gerados pela natureza que não são capturados pelo Sistema, porque eles não estão inseridos em um processo de produção. Na literatura nacional, são chamados de serviços ecossistêmicos. Por isso, de forma complementar, a abordagem metodológica das Contas de Ecossistemas, que está presente no último manual lançado recentemente pela Divisão de Estatísticas da ONU, traz a perspectiva de identificar e mapear esses serviços, que são essenciais para a manutenção de diversas atividades humanas e da própria vida”, explica a gerente de meio ambiente do IBGE, Maria Luisa Pimenta.

Entre as variáveis da pesquisa está a captação direta de Água Azul, que é a água captada nos diversos mananciais superficiais e subterrâneos de água doce para diferentes usos. O indicador foi selecionado para determinar a pressão da ação humana nos ecossistemas aquáticos, e é adequado à sua compreensão global, juntamente às demais variáveis apresentadas no estudo, assim como na avaliação da provisão de água.

“Por meio dessa variável, podemos avaliar alguns usos consuntivos da água. Um uso é considerado consuntivo quando a água é consumida pelo processo a que se destina, ou seja, ela não retorna diretamente para o meio ambiente. Com as bases de dados hoje existentes no Brasil, é possível fazer a distinção entre os diferentes volumes que são captados de acordo com a sua finalidade, como por exemplo para a agricultura irrigada e o abastecimento urbano”, comenta Maria Luisa.

A ordem das participações dos biomas na captação de água se manteve a mesma, mas com pequenas variações nos sete anos que compreendem o estudo. A Mata Atlântica, que em 2010 respondia por 42% da retirada de água, passou a 39% em 2017, enquanto o Cerrado foi de 20% para 23%.

Presença bactéria responsável por contaminação fecal diminui

A avaliação do estado químico da água foi realizada a partir de cinco variáveis. A análise dos resultados foi feita com base na proporção dos pontos de monitoramento presentes nos rios, igarapés e córregos (corpos hídricos lóticos) e lagos, lagoas e açudes (corpos hídricos lênticos), nos quais é possível avaliar se a condição expressa em sua leitura atende aos parâmetros previamente definidos pelas resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) que caracterizam a boa qualidade dos recursos hídricos dos biomas. Cabe ressaltar que a avaliação está diretamente relacionada à existência de monitoramento e disponibilidade de dados, por parte da ANA e dos órgãos gestores de recursos hídricos e meio ambiente nas Unidades da Federação.

“A metodologia de uma conta de condição de ecossistema implica que haja um nível de referência para avaliar a qualidade dele (bom ou ruim, em termos gerais). Para essas variáveis, existem resoluções ambientais no Brasil que estabelecem esse limite de qualidade. Então, foi avaliado o percentual de pontos em que o resultado é considerado bom e o restante é considerado ruim”, explica a gerente de meio ambiente do IBGE.

O Oxigênio Dissolvido garante a presença da vida nos rios e lagos. Como a decomposição da matéria orgânica por bactérias reduz o nível de oxigênio na água, uma queda nesse indicador pode estar relacionada à presença de poluição por esgotos. Em 2017, os pontos de monitoramento com bons níveis desse indicador estavam em proporções acima de 70% em todos os biomas, com exceção do Pantanal, em que passaram de 42% em 2010 para 56% nos rios e córregos.

A presença da bactéria Escherichia Coli, que está relacionada com a contaminação fecal das águas, causada por despejos de esgotos domésticos e efluentes de criações animais, representa risco à saúde humana. A proporção de pontos com níveis adequados de E. Coli nos rios da Amazônia aumentou de 79% para 87% entre 2010 e 2017. Já no Cerrado verificou-se queda de 72% para 60%, também nos corpos lóticos. No Pantanal, passou de 63% para 100%.

A Demanda Bioquímica de Oxigênio representa a quantidade desse elemento necessária para oxidar a matéria orgânica presente na água, um processo que é realizado por bactérias aeróbicas. É também um indicador importante da poluição das águas por esgotos. Entre 2010 e 2017, essa variável apresentou queda significativa de bons níveis nos pontos de monitoramento (de 99% para 47%) demonstrando piora na qualidade das lagoas e açudes da Caatinga.

A Turbidez se refere à capacidade da água de deixar passar luz. Águas turvas podem estar associadas à presença de corpos sólidos ou de pigmentos. Fatores como processos erosivos ou a presença de esgotos podem aumentar a turbidez. Trata-se de um indicador genérico para a qualidade de água e há necessidade de ser avaliado em conjunto com outros. Esse indicador se manteve em bons níveis em todos os biomas.

 Já a presença de Fósforo Total é um indicador de desequilíbrio no corpo hídrico, porque altas concentrações desse elemento podem desencadear o crescimento excessivo de plantas aquáticas e algas, o que pode tornar a água imprópria para o consumo humano. Também existe impacto em outros possíveis usos, como recreação, turismo, paisagismo, irrigação e o hidrelétrico. Como grande parte da água do abastecimento humano é tratada, na prática, há aumento do custo de tratamento para torná-la própria ao consumo.

Nas lagoas e açudes da Caatinga, a proporção de pontos monitorados com boas condições de fósforo, que já era baixa (5%) em 2010 não viu melhora em 2017 (4%). A Mata Atlântica apresentou pequena melhora de 2010 (22%) para 2017 (35%), mas o percentual ainda é muito baixo. No Cerrado, o indicador caiu de 76% para 62% nos rios e córregos e de 70% para 67% nos lagos e lagoas.

Maior parte das microbacias está em excelentes condições quantitativas

O balanço hídrico quantitativo, que retrata a relação entre as demandas de retirada de água e a disponibilidade hídrica, mostrou que a maioria das microbacias apresentaram condições excelentes, com exceção das microbacias dos biomas Caatinga e Pampa, onde a maioria das análises apresentou condição muito crítica (44% e 34%, respectivamente). Isso se deve à baixa disponibilidade hídrica, característica natural da primeira região, semiárida, e às demandas consideráveis pelo recurso na segunda; de toda água captada no Brasil para irrigação, 30% se deu no Pampa em 2017, basicamente para arroz.

No balanço hídrico qualitativo, que expressa a capacidade do corpo d’água de diluir poluentes, verifica-se que em todos os biomas a maioria das microbacias apresentaram condições ótimas. Porém, 28% das microbacias da Mata Atlântica apresentaram um balanço hídrico qualitativo razoável, ruim ou péssimo, o que está relacionado à grande presença e concentração de áreas urbanas nessa porção do território, que contribuem para a piora na qualidade da água e na capacidade de autodepuração dos corpos hídricos.

Para as espécies aquáticas avaliadas quanto ao risco de extinção atualmente no Brasil, verifica-se que houve mais espécies da fauna, em sua maioria vertebrados, e da flora ameaçadas no bioma Mata Atlântica (360), seguido do Cerrado (216) e Amazônia (104), em termos absolutos. Em uma análise percentual, metodologicamente mais adequada, pode-se destacar o indicador de vertebrados ameaçados para a Mata Atlântica (11,3%), Cerrado (9,1%) e o Pampa (7,8%).

Condição hídrica do Pampa e Cerrado reflete presença da agricultura irrigada

Atualmente, a maior concentração das áreas naturais florestais contínuas situa-se na Amazônia, o que vai ao encontro da baixa captação de água no bioma, bem como de um balanço hídrico quantitativo e qualitativo excelente e ótimo, o que está relacionado à menor ocupação humana na região e à grande oferta de água característica de regiões de clima tropical superúmido.

O aumento na captação direta de água no Cerrado, 27% de 2010 a 2017, foi detectado no mesmo período do processo de intensificação do uso da terra, sobretudo em termos de incremento em área agrícola nesta região, conforme mostraram os resultados da primeira edição das Contas de Ecossistemas lançadas pelo IBGE no ano passado. Essa demanda hídrica está concentrada nos setores de agricultura irrigada e abastecimento urbano. A redução da quantidade de pontos de monitoramento que apresentaram bons níveis de Fósforo Total, entre 2010 e 2017, pode, portanto, estar relacionada aos processos erosivos do solo e à poluição difusa desencadeados por essa expansão.

O Pantanal é o bioma mais preservado em termos percentuais, o que reflete um menor dinamismo de conversões de usos da terra do país. A captação de água no bioma, tanto em 2010 quanto em 2017, representava apenas 0,2% do consumo no país.

No Pampa, a análise de cobertura e uso da terra indicou uma predominância de conversões de usos entre 2000 e 2018 de vegetação campestre para área agrícola e silvicultura. A irrigação das lavouras concentra cerca de 90% do consumo da região e 34% das bacias que compõem o bioma apresentaram um balanço hídrico quantitativo muito crítico.

Já a Mata Atlântica é o único bioma terrestre brasileiro cuja classe predominante não é de cobertura natural, associada à maior representatividade da captação de água com a finalidade do abastecimento humano urbano (64% do total do setor em 2017). Os efeitos do histórico de ocupação e transformação da Mata Atlântica sobre os ecossistemas de águas superficiais também se refletem na maior proporção de espécies aquáticas de vertebrados ameaçadas de extinção entre os biomas brasileiros (11,3% em 2014).

Documentos

 

Por Eduardo Peret | Arte: Helena Pontes – IBGE . 15/04/2021

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