O aumento do senso de coerência como estratégia para uma melhor saúde bucal

O modelo convencional de educação em saúde, que enfatiza questões como estilo de vida e mudança de comportamento, tem sido gradativamente substituído por modelos que enfatizam os determinantes sociais, ambientais e políticos da saúde. Na tentativa de superar a dicotomia entre saúde/doença, esses modelos apresentam uma complexidade variada e envolvem diferentes dimensões, implicando em uma abordagem multidisciplinar para a pesquisa e a promoção da saúde. Essa perspectiva sugere que os fatores que promovem a saúde são distintos daqueles que modificam o risco para doenças específicas, e enfocam a origem da saúde (salutogênese), em contraposição aos fatores de riscos individuais, conforme descrito por Antonovsky no final dos anos 90.

Dentro desse modelo salutogênico, um dos fatores que se estruturam a partir do contexto histórico-cultural individual, e que tem sido visto como um forte preditor da saúde bucal, é o senso de coerência (SOC) (Eriksson e Lindstrom, 2006, 2007). O senso de coerência está relacionado à forma como os indivíduos dão sentido ao mundo, usam os recursos requeridos para responder a uma demanda e sentem que essas respostas são significantes e fazem sentido emocionalmente. Ver o mundo como compreensível, manejável e com significado facilitaria a seleção de recursos e comportamentos eficazes e culturalmente apropriados para o enfrentamento de situações adversas (Antonovsky, 1998).

Algumas pesquisas mostram que na associação de alguns fatores ambientais e individuais (como senso de coerência, locus de controle, autoestima, crenças relacionadas à saúde bucal, sexo, escolaridade dos pais, renda e situação no trabalho) e a saúde bucal, o senso de coerência se revelou como o único preditor consistente de qualidade de vida relacionada à saúde bucal, prevendo menos sintomas e menos impactos sobre a vida cotidiana em crianças.

Pesquisadores da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, foram pioneiros em um estudo de intervenção com o objetivo de aumentar o senso de coerência em escolares visando à melhoria da qualidade de vida relacionada à saúde bucal, além de examinarem os determinantes diretos e indiretos desse processo (Nammontri, Robinson & Baker, 2012). A intervenção visou reforçar o senso de coerência, melhorando seus componentes (comprensibilidade, manejabilidade e significância) em 261 crianças de 10 a 12 anos (133 no grupo de intervenção e 128 no grupo controle) em 12 escolas primárias da Tailândia. Os dados foram coletados no início, duas semanas após a intervenção, e em três meses de acompanhamento.

Foram avaliados parâmetros clínicos como a cárie, trauma dental, saúde gengival e anormalidades dentais. Além disso, os pesquisadores avaliaram parâmetros intermediários responsáveis pelas melhorias observadas em quatro aspectos da saúde bucal relacionada à qualidade de vida: a administração dos sintomas bucais, limitações funcionais, bem-estar emocional, e bem-estar social. Foram coletadas também informações a respeito das crenças sobre saúde bucal, como questões referentes à dieta, práticas de higiene bucal, uso de flúor, e atendimento odontológico. E, da forma como foram estruturados teoricamente e avaliados posteriormente, esses parâmetros representam uma mudança na perspectiva dos estudos epidemiológicos em saúde bucal, pois partem de um modelo reducionista para uma perspectiva holística sobre o processo saúde-doença.

Aaron Antonovsky

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os resultados apresentados por Nammontri, Robinson e Baker, fornecem evidências experimentais de que o senso de coerência influencia a qualidade de vida relacionada à saúde bucal e sugere que pode ser uma via adequada para promoção de saúde bucal em escolas. O grupo que participou das sessões de intervenção apresentou após três meses uma melhor saúde bucal relacionada à qualidade de vida (menos sintomas bucais, menos limitações funcionais, maior bem-estar emocional e social), comparado com o grupo controle (sem intervenção). Além disso, apresentou um senso de coerência muito maior, e houve uma pequena, mas estatisticamente significativa, melhoria nos comportamentos de saúde bucal e saúde gengival. De acordo com a teoria comportamental subjacente a intervenção, as crianças que desenvolveram um maior sentido de coerência adotaram crenças mais favoráveis sobre saúde bucal, realizaram comportamentos saudáveis dentários, e, assim, gozavam de melhor saúde bucal clínica e qualidade de vida.

Nesta edição do Journal of Dental Research, Nammontri e colaboradores mostram a grande relevância de seu estudo, principalmente porque a relação entre os principais determinantes psicossociais e a saúde bucal ainda se mantém pouco conhecida e imprecisa. Contudo, como em qualquer ensaio clínico único, os resultados exigem uma verificação em outros ambientes antes das intervenções possam ser recomendados para uma implementação mais ampla. Como o alto senso de coerência tem sido relacionado amenos sintomase melhor autoavaliação de saúde e qualidade de vida emadultos (Eriksson e Lindstrom, 2007), é possivel também que esse tipo de intervenção possa ser aplicado a desfechos em saúde geral.

É interessante perceber que métodos convencionais de educação em saúde bucal não têm reduzido os níveis de doenças dentárias (Kay & Locker, 1996), mesmo assim ainda é mantido por alguns gestores de saúde. No entanto, uma intervenção baseada na escola que tem como alvo os determinantes psicossociais da saúde bucal, ao invés do foco em comportamentos de saúde, parece ser uma estratégia mais promissora em termos de promoção de saúde.

Imagem da home: http://portal.saude.gov.br/

Referências Bibliográficas

 

Eriksson M, Lindström B. Antonovsky’s sense of coherence scale and its relation with quality of life: a systematic review. J Epidemiol Community Health [periódico na internet]. 2007 [acesso em 29 jan 2013];61(11):938-44. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2465600/. doi:  10.1136/jech.2006.056028.

Kay EJ, Locker D. Is dental health education effective? A systematic review of current evidence. Community Dent Oral Epidemiol. 1996;24(4):231-5.

Nammontri O, Robinson PG, Baker SR. Enhancing oral health via sense of coherence: a cluster-randomized trial. J Dent Res. 2013;92(1):26-31. Epub 2012 Sep 27.

Salutogenesis. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. [acesso em 28 jan 2013]. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Salutogenesis

Silva AN, Mendonça MH, Vettore MV. A salutogenic approach to oral health promotion. Cad Saúde Pública. 2008;24 Suppl 4:s521-30.

Slade GD. Are dental health behaviors rational, after all? J Dent Res. 2013;92(1):5-6. Epub 2012 Sep 27.

 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*