Podcast Primeiro Turno: O nó das cidades – Os desafios da mobilidade urbana nos grandes centros urbanos

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A mobilidade urbana afeta diretamente a vida das pessoas na cidade. Um exemplo: só na região metropolitana do Rio de Janeiro, uma em cada quatro pessoas leva mais de uma hora pra se deslocar de casa pro trabalho.

Para entender a dinâmica de transporte nos grandes centros urbanos, o sexto episódio do Primeiro Turno, podcast do Insper, conversou com Clarisse Cunha, diretora-executiva do escritório brasileiro do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), e com Maína Celidonio, economista que será professora no Insper a partir de janeiro de 2021.

Clarisse pondera que apesar de ter sido o grande impulsionador das manifestações em 2013, o transporte público não costuma ser o protagonista nos debates eleitorais.

Na avaliação dela, as prefeituras precisam focar o planejamento baseado em dados e evidências, o que pode contribuir para “uma decisão mais inteligente sobre onde investir, por que investir, quais são os grupos da população que estão em territórios aonde de fato não há investimento”.

Um mecanismo possível é o uso das informações coletadas dos ônibus. “Nas cidades em que a gente consegue usar os dados de GPS, por exemplo, consegue entender quais são as vias mais carregadas de ônibus, quais são as vias prioritárias, onde é que tem mais congestionamento”, diz Clarisse.

A distribuição das moradias e dos postos de trabalho no território é algo que também está diretamente relacionado à dinâmica de planejamento urbano e da rede de transporte.

A tese de doutorado de Maína analisa os impactos de obras de melhoria da mobilidade urbana no Rio de Janeiro em decorrência dos Jogos Olímpicos de 2016.

No trabalho, a pesquisadora se concentrou em três delas: a extensão de uma linha de metrô; a criação do um VLT, uma espécie de bonde elétrico; e a criação de mais de cem quilômetros em corredores de BRT, uma faixa exclusiva de ônibus em que o embarque de passageiros ocorre no mesmo nível do veículo e em que não há cruzamentos com outras vias de transporte.

Os efeitos dessas três obras foram analisados em duas dimensões: o que ocorre no entorno das novas estações e as repercussões na cidade como um todo. “A gente tenta entender como é que a cidade se realoca quando você muda os tempos de deslocamento e o que acontece com o bem-estar das pessoas”, afirma Maína.

No entorno das novas estações, principalmente de BRT e de metrô, houve impacto positivo na criação de empresas e empregos, sobretudo no setor de serviços, comércio e construção civil. Esse resultado se dá não apenas pela circulação de pessoas que a estação propicia mas também porque surgem áreas residenciais e, consequentemente, o comércio é impulsionado. Em relação ao tempo de transporte, Maína verificou que o BRT teve o maior impacto e reduziu em 20 minutos o tempo da viagem. No caso do VLT, esse benefício cai pra 8 minutos, e no caso do metrô a queda é de 3 minutos. Considerando os três modais de transporte juntos, o tempo de vigem tem a maior queda: 45 minutos.

Maína explica os ganhos associados ao BRT: “Ele faz o círculo em volta da cidade, ele entra numa área muito desassistida de transporte de massa. É uma área em que você não tem ramais de trem, praticamente, e você não tem metrô. Então, ele promove um ganho de acessibilidade muito grande, é uma área que não tinha transporte de massa antes e passa a ter”.

Os ganhos na redução do tempo de deslocamento afetam todos os trabalhadores, mas os qualificados se beneficiam mais. Isso ocorre porque quando o investimento de transporte é realizado em determinada região, o preço da terra ali sobe. E a população que ocupava essa região pode decidir mudar para outra localidade.

Maína reforça a importância de, no desenho das políticas públicas, considerar o fato de que as pessoas podem alterar as suas escolhas mediante o investimento público: “Às vezes, um vereador ou um prefeito fala: ‘Vou fazer uma coisa em tal bairro e vai beneficiar a população daquele bairro’. Bem, no final, você não sabe exatamente quem você vai beneficiar, mas sim somente o lugar”.

Referências

O Carioca e o Transporte na Cidade”. ITDP (2020)

Urban Mobility, Inequality and Welfare in Developing Countries: Evidence from 2016 Olympics in Rio de Janeiro”. Maína Celidonio de Campos (2020)

 

Por Insper . 05/11/2020

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