Como contextualizar as desigualdades sociais para estudantes de graduação na área da saúde?

A desigualdade social é o maior problema estrutural do Brasil. Faz muito tempo que as diferenças nas condições de vida e saúde são evidenciadas entre grupos populacionais distintos. Por isso, não é mais aceitável que nos dias de hoje tenhamos profissionais da área de saúde, sejam médicos, cirurgiões-dentistas, enfermeiros ou nutricionistas, que desconheçam e não tenham discutido (em algum momento de sua formação) aspectos relacionados à desigualdade social, equidade e vulnerabilidade. Principalmente, é inconcebível que não tenham consciência sobre questões relacionadas às desigualdades sociais em saúde, que são persistentes e possuem uma grande magnitude no cenário brasileiro.

O reconhecimento dos problemas existentes na saúde pública e a experiência prática em lidar com eles (eventualmente solucionando-os) parecem ser condições sine qua non na formação de profissionais da área de saúde. Por isso, devem conhecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e seus princípios, e os modelos de atenção em saúde, como a Estratégia de Saúde da Família. Além disso, é preciso que esses futuros profissionais conheçam, ainda na graduação, as principais políticas e programas em saúde pública, e conceitos básicos sobre planejamento e gestão em saúde (Moimaz, 2004).

Quando falamos em conhecer, estamos nos referindo à experimentação e vivência na prática, a participação intelectual ativa, não somente a apreensão da teoria. No Brasil, as atividades extramuros de alguns cursos superiores na área da saúde têm essa proposta, cujo objetivo fundamental é favorecer o contato dos alunos com as dimensões estruturais dos serviços públicos de saúde, além da sua participação no atendimento à população, a melhor compreensão da aplicação das políticas de saúde in situ, o reconhecimento do seu papel enquanto profissional e, principalmente, a familiarização com o contexto social no qual futuramente irá trabalhar.

Em algumas situações esse futuro profissional não irá atuar em uma área em desvantagem social, mas é a sua oportunidade de começar a entender e refletir como as desigualdades sociais interferem na distribuição dos agravos em saúde em nível populacional. Embora a transferência de conceitos e teorias, e a aplicação de soluções em diferentes contextos possam representar um desafio e gerar dificuldades no seu início, se as atividades extramuros estiverem integradas em um programa de aprendizagem coerente e estruturado, a transição entre ambientes passa a ser benéfica. Além disso, essa experiência resultará na habilidade do profissional de exercer suas atividades com maior eficiência para a população que irá demandar seus cuidados.

Na Inglaterra, o programa de atividades extramuros (Dental Outreach Training Programme) do curso de Odontologia da Universidade de Sheffield insere estudantes de graduação do 4° e 5° anos em contextos sociais distintos e os prepara para as demandas da profissão. Mais do que isso, esse programa tem carácter inovador porque ao final do curso, os alunos passam um total de 20 semanas trabalhando em tempo integral como membros das equipes odontológicas em clínicas voltadas para atenção primária e secundária em ao menos dois bairros da cidade. Sob a supervisão de dentistas da própria clínica, que são criteriosamente selecionados, eles exercem a odontologia em ambientes substancialmente diferentes da clínica odontológica da faculdade. A atuação profissional em condições reais possibilita que o estudante atenda à demanda do bairro levando em conta as suas condições sociais e ambientais.

Dentre os objetivos desse programa de atividades extramuros os alunos fortalecem ainda mais a sua competência com novos conhecimentos, aumentando a autoconfiança. Esse aumento paralelo de competência e autoconfiança foi encontrado em um estudo caso-controle realizado pela própria Universidade de Sheffield. Os alunos que foram para o programa se mostraram mais otimistas em relação a sua auto avaliação de confiança após a experiência extramuros do que os que não foram. Além disso, o planejamento do tratamento dos pacientes foi mais bem elaborado, pois levaram em conta as condições sociais e familiares dos pacientes, seu estilo de vida e desejos. Fundamentalmente, o maior intuito desse programa extramuros é uma formação acadêmica integral e contextualizada com a realidade social.

Muitos cursos de Odontologia no Reino Unido têm aumentado o papel dos cuidados primários em seus currículos, melhorando a aprendizagem e preparando os alunos para atenderem melhor as necessidades de comunidades, através de um atendimento integralizado e uma maior compreensão dos comportamentos relacionados à saúde. Contudo, sabemos que será de pouca utilidade a experiência extramuros se os alunos não voltarem de lá com alguns valores sedimentados, como o de que as condições de saúde e acesso ou a utilização de recursos assistenciais são determinadas por indicadores de desigualdades sociais, tais como renda, educação e classe social.

 

Referências Bibliográficas

 

Moimaz SAS, Saliba NA, Arcieri RM, Garbin CAS, Saliba O, Zina LG. Percepção de ex-alunos sobre a contribuição do serviço extramuro odontológico (SEMO) da FOA – UNESP na formação profissional. Rev Ciênc Ext [periódico na internet]. 2004 [acesso em 20 maio 2014];1(2):149-162. Disponível em: http://ojs.unesp.br/index.php/revista_proex/article/download/171/85

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Smith M, Ash P, Gilmour AS, Austin T, Robinson PG. Outreach training: the special interest group’s report. Eur J Dent Educ. 2011;15(2):85-9.

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