Desafios das pessoas que vivem com HIV/Aids

Desde 1988, em 1º de dezembro é comemorado o Dia Mundial da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), sendo o primeiro dia dedicado à saúde em todo o mundo. Desde então, agências internacionais de saúde, governos e sociedade civil se reúnem todos os anos para apoiar as pessoas que vivem com a doença, lembrar aqueles que morreram com doenças relacionadas à Aids, conscientizar através de ações e comemorar as vitórias – como acesso a serviços de prevenção e tratamentos antirretrovirais.

Na busca contínua da redução de casos e óbitos, na terça-feira (1/12), o Ministério da Saúde (MS) lançou a Campanha de Prevenção ao HIV/Aids 2020. Com o slogan, “HIV/Aids. Faça o teste. Se der positivo, inicie o tratamento”, a campanha visa conscientizar sobre a importância da testagem para caso a doença seja detectada, o tratamento inicie de imediato.

Conforme estatísticas globais do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre Aids (Unaids), desde o início da epidemia, em 1981, até final de 2019, 75,7 milhões de pessoas no mundo foram infectadas com o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) – causador da Aids, das quais 32,7 milhões morreram de doenças relacionadas à síndrome, demostrando que a Aids continua sendo uma das epidemias mais destrutivas do mundo.

No Brasil, dados do MS, publicados em 1/12, mostram que o país tem registrado queda no número de casos de infecção por Aids nos últimos anos. A taxa de detecção da doença passou de 21,9/100 mil habitantes, em 2012, para 17,8/100 mil habitantes, em 2019, o que representa um decréscimo de 18,7%. A taxa de mortalidade também baixou, de 12.667 óbitos pela doença, em 2015, para 10.565, em 2019, significando uma redução de 17,1%.

Aids no cenário da pandemia

A chegada do novo coronavírus (Covid-19) evidenciou para a população mundial como uma pandemia pode decorrer uma crise sanitária e abalar a existência de todos, por isso, as ações preventivas e de atenção às Pessoas que Vivem com HIV/Aids (PVHA) devem ser reforçadas, entendendo elas como população de risco para o contágio da Covid-19. Nesse sentido, a pesquisadora do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e professora do Programa de Pós-graduação em Saúde da Criança e da Mulher (PPSCM) da instituição Ivia Maksud, que junto com o pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) Eduardo Melo coordena desde 2018 a pesquisa “O cuidado das pessoas que vivem com HIV/Aids na rede de atenção à saúde”, foi consultada sobre os desafios que hoje atravessam as PVHA.

Para essa população, a pandemia do coronavírus agregou vários desafios aos já existentes. “No caso da atenção as PVHA, uma pesquisa feita pela Unaids com aproximadamente 3.000 PVHA no Brasil, apontou que quase metade considerava-se pouco informada sobre a relação entre a Covid-19 e o HIV. A pesquisa mostrou também que muitas pessoas não estavam conseguindo permanecer em casa, pois precisavam trabalhar, e mais de um terço tinha medo de revelar que vivem com HIV”, comenta Ivia.

Em relação ao cuidado das PVHA na conjuntura atual da pandemia, para a pesquisadora os principais desafios giram em torno da diminuição do número de vagas para consultas ou leitos e da redução de profissionais de saúde em algumas unidades especializadas. “Em unidades de atenção primária, o desafio continua sendo a retração ocasionada pelo fechamento de várias Clinicas da Família, bem como pela diminuição das equipes na maioria delas, como mostrou recentemente um artigo de Eduardo Melo e colaboradores”, acrescenta Ivia.

Enquanto os serviços de saúde seguem a recomendação da Unaids e do MS, disponibilizando o tratamento antirretroviral (ARV) por três meses, o que reduz a circulação das PVHA em direção aos serviços e, consequentemente, à exposição ao Coronavírus, “por outro lado, tal orientação acaba por contribuir para a diminuição de consultas e exames, o que também representa um desafio para a continuidade do tratamento e aumento do número de casos de abandono”, explica Ivia.

Hora de informar o diagnóstico

O momento de revelação diagnóstica exige habilidade e técnica do profissional que têm a frente seu paciente e constrói com ele um vínculo de confiança e respeito. Segundo Ivia, no Brasil ainda há muitos desafios em relação a essa revelação. “De forma recorrente, os pesquisadores têm apontado para a importância de fortalecer a formação médica no que diz respeito a essa temática. No país é possível encontrar muitos relatos de revelação diagnóstica feita inadvertidamente a parceiros ou familiares. Em serviços já estruturados e com acúmulo de experiência da equipe, essa situação tende a ser menos comum, respeitando o direito à confidencialidade daquela pessoa que fez o teste”.

Em relação às mulheres gestantes, caso essa descoberta se dê no momento do pré-natal, a equipe tem um duplo desafio. “É o momento de orientar a paciente em relação ao seu próprio cuidado e à prevenção da transmissão vertical, que se mostra bastante bem sucedida já há muitos anos”. Já em relação às crianças e adolescentes, “a psicóloga Julia Baptista, uma aluna de mestrado do PPSCM do IFF/Fiocruz, recentemente defendeu seu trabalho de conclusão de residência sobre revelação diagnóstica nessa população, e mostra que para esse público específico é muito importante que profissionais de saúde construam vínculos de cuidado não só com os pacientes, mas com seus familiares, que devem decidir conjuntamente quando e como revelar”, adverte Ivia.

Desafios nos métodos de prevenção

“A camisinha é ainda considerada pelos especialistas como o principal método para evitar a infecção por HIV/Aids, sendo, no Brasil, de fácil acesso no Sistema Único de Saúde (SUS), nas versões masculina e feminina. Mas ainda há vários desafios culturais sobre sua utilização, ligados desde os sentimentos de confiança nos parceiros e afrouxamento de seu uso, à dificuldade de negociação entre os parceiros em muitas relações, até a necessidade de fortalecimento das informações quanto ao seu uso nas escolas, nas campanhas de grande mídia para o público geral e campanhas para populações específicas”, explica Ivia.

Além da camisinha, outros métodos complementam a política de prevenção combinada e estão disponíveis no SUS atualmente, como a Profilaxia Pós-exposição (PEP), tanto para prevenção de “acidentes ocupacionais”, para trabalhadores de saúde, quanto para “acidentes sexuais”, e a Profilaxia Pré-exposição Sexual (PrEP), disponível para pessoas em situação de maior vulnerabilidade/risco para infecção, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo e parcerias sorodiscordantes.

                                                           Prevenção Combinada

A importância da luta contra a Aids

Para a pesquisadora e professora do IFF/Fiocruz, apesar dos inúmeros desafios nas ações contra a Aids, o movimento de luta contra a doença se mantém ativo e realiza importantes iniciativas de conscientização social. “Na cidade do Rio de Janeiro, Organizações Não Governamentais (ONGs), como ABIA e Pela Vidda, continuam a realização de seus trabalhos de forma combativa e são também grandes aliadas das instituições de pesquisa que visam produzir dados científicos afinados com a melhoria das políticas públicas e dos serviços de saúde, ações fundamentais para o tratamento oportuno e a erradicação da doença”, finaliza Ivia Maksud.

 

Por Mayra Malavé Malavé – IFF/Fiocruz . 08/10/2020

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