O pico da 2ª onda global da covid-19 tem o dobro de mortes, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Raquel Portugal/Fiocruz Imagens

A pandemia da covid-19 continua avançando no mundo e, embora o número de casos tenha diminuído nas últimas semanas, o mês de janeiro, lamentavelmente, bateu todos os recordes de vidas perdidas. Como mostra a figura abaixo, do jornal Financial Times, a média móvel de vidas perdidas foi de 412 óbitos na semana de 9 a 15 de março, passou para 6,75 mil óbitos na semana de 11 a 17 de abril, diminuiu nos meses seguintes e voltou a subir a partir de outubro, chegando ao pico de cerca de mais de 14 mil mortes diárias na semana de 18 a 24 de janeiro de 2021. O pico da 2ª onda da covid-19 (14.027 óbitos diários de 18 a 24 de janeiro) já é mais do dobro do pico da 1ª onda (6.748 óbitos de 11 a 17 de abril de 2020).

O gráfico abaixo, da Organização Mundial da Saúde (OMS), mostra o número de casos por semana epidemiológica ao longo do ano de 2020 e janeiro de 2021, com destaque para as grandes regiões. Houve um crescimento continuado e sustentado do número de casos semanais ao longo de 2020. Na semana de 03 a 09 de fevereiro ocorreram 23 mil casos no mundo. Na semana de 13 a 19 de abril foram 540,9 mil casos. Na semana de 09 a 15 de novembro foram pouco menos de 4 milhões de casos e na semana de 16 a 22/11 o número de casos semanais ultrapassou, pela primeira vez, os 4 milhões de casos.

O pico do ano de 2020 ocorreu entre 14 e 20 de dezembro com 4,6 milhões de casos (mais de 656 mil casos diários). Nas duas últimas semanas o número de casos diminuiu em função dos feriados de fim de ano. Todavia, na semana de 04 a 10 de janeiro a OMS registrou mais 5 milhões de novos contágios em uma semana, sendo mais de 700 mil casos diários. Nas semanas seguintes os montantes diminuiram e ficaram em 3,6 milhões na semana de 25 a 31 de janeiro, com média em torno de 500 mil casos diários.

O gráfico seguinte, também da OMS, mostra o número de óbitos por semana epidemiológica ao longo do ano de 2020 até 31/01/2021. Na semana de 03 a 09 de fevereiro ocorrem 508 mortes no mundo e o pico foi atingido na semana de 13 a 19 de abril com 51 mil óbitos na semana (7,4 mil ao dia). Nas semanas seguintes houve oscilação, mas sempre com montantes menores do que o pico de abril. Contudo, na semana de 02 a 08 de novembro houve 53,9 mil mortes superando o pico de abril. E a aceleração não parou por ai e aumentou nas semanas seguintes até o pico que ocorreu na semana de 14 a 20 de dezembro, com 79,9 mil óbitos na semana (11,3 mil ao dia).

Nas duas últimas semanas o número de óbitos diminuiu em função dos feriados de fim de ano. Mas na semana de 03 a 10 de janeiro e o mundo registrou 85,7 mil vítimas fatais, sendo mais de 12 mil óbitos por dia. O pico foi atingido entre 18 e 24 de janeiro, quando todos os recordes foram quebrados e o mundo atingiu quase 100 mil vidas perdidas em uma semana (quase 14 mil mortes diárias). Na última semana de janeiro de 2021 o número de mortes caiu um pouco mas ficou em alto patamar com 93,8 mil vítimas fatais.

No mês de janeiro dois países tiveram comportamentos opostos já que Portugal tem batido tosos os recordes e a Índia tem apresentado números surpreendentemente baixos. A Índia tem apresentado números declinantes de casos e, no dia 27/01, tinha uma média de 1 caso por 100 mil habitantes, enquanto o Brasil tinha 25 casos por 100 mil e Portugal tinha 125 casos por 100 mil habitantes.

Em relação ao número de vidas perdidas, no dia 27/01, Portugal apresentou uma média de 2,7 óbitos por 100 mil habitantes, o Brasil 0,5 óbitos por 100 mil e a Índia somente 0,01 óbitos por 100 mil habitantes.

Considerando os números de casos e mortes acumulados até o dia 30/01/2021, a tabela abaixo mostra que a Índia, com uma população de 1,3 bilhão de habitantes, tinha mais de 10 milhões de casos, mas o coeficiente de incidência de 7,7 mil casos por milhão de habitantes e tinha 154,3 mil óbitos, com coeficiente de mortalidade de 111 óbitos por milhão. O Brasil tinha o terceiro número acumulado de casos (atrás apenas dos EUA e da Índia), com quase 10 milhões de pessoas infectadas e um coeficiente de incidência de 43 mil casos por milhão de habitantes (muito superior ao coeficiente da Índia).

O Brasil com o segundo maior número de mortes (atrás apenas dos EUA) registrou 224 mil óbitos, ou 1.050 mortes por milhão de habitantes (quase 10 vezes o coeficiente da Índia). Mas Portugal, com população de 10,2 milhões de habitantes, registra os maiores coeficientes, sendo 70 mil casos por milhão e 1.196 óbitos por milhão de habitantes. Portanto, Portugal tem sido mais impactado pela pandemia do que o Brasil e a Índia tem avançado no controle da covid-19.

Os países mais impactados têm apostado na vacina para interromper a propagação dos casos e as mortes. Já são cerca de 60 países que começaram a vacinação em massa. A tabela abaixo mostra alguns países segundo o número absoluto de doses administradas até o dia 30 de janeiro. O mundo se aproxima de 100 milhões de doses., Os EUA, China, Reino Unido e Israel apresentam os maiores números absolutos acumulados, sendo que Israel apresenta o maior número relativo, com mais da metade da população já vacinada.

Embora a vacinação em massa esteja avançando, vai demorar pelo menos até o meio do ano para surtir algum efeito significativo na redução dos números da pandemia.

No caso do Brasil, a vacinação só deve apresentar algum resultado no final de 2021 ou em 2022.

E para complicar, as novas cepas do novo coronavírus trazem novos desafios e podem gerar um grande tsunami de casos nos próximos meses. O primeiro semestre de 2021 será crítico para a população brasileira e para toda a América Latina.

Referências:

ALVES, JED. A pandemia de Coronavírus e o pandemônio na economia internacional, Ecodebate, 09/03/2020
https://www.ecodebate.com.br/2020/03/09/a-pandemia-de-coronavirus-covid-19-e-o-pandemonio-na-economia-internacional-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A covid-19 bate todos os recordes globais em novembro, Ecodebate, 16/11/2020
https://www.ecodebate.com.br/2020/11/16/a-covid-19-bate-todos-os-recordes-globais-em-novembro/

ALVES, JED. O impacto mortal da covid-19 sobre a economia e a demografia brasileira, ANPOCS, 11/05/20
http://anpocs.com/images/stories/boletim/boletim_CS/Boletim_n37.pdf

ALVES, JED. Passado, Presente e Futuro da Pandemia da Covid-19, Instituto Fernando Braudel, SP, 11/06/2020
https://pt.scribd.com/document/465506796/O-passado-o-presente-e-o-futuro-da-pandemia-do-novo-coronavirus

Vídeo: https://www.facebook.com/watch/live/?v=293538905150329&ref=watch_permalink

ALVES, JED. A covid-19 bate todos os recordes globais em novembro, Ecodebate, 16/11/2020
https://www.ecodebate.com.br/2020/11/16/a-covid-19-bate-todos-os-recordes-globais-em-novembro/

José Gomes Temporão, Carlos Gadelha, José Eustáquio Alves e Alberto Carlos Almeida. Vacinas, Política, Economia e Desenvolvimento Tecnológico, Live, 28/01/21
https://www.youtube.com/watch?v=8gFWznXkO8A

 

Por José Eustáquio Diniz Alves – EcoDebate. 04/02/2021

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