II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas mostra o consumo de álcool crescente e desigual pela população brasileira

Mulheres apresentaram maiores índices de aumento entre 2006 e 2012

O brasileiro está bebendo mais e de forma mais nociva. Esta é uma das conclusões do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) divulgado em abril deste ano, que estima que 11,7 milhões de pessoas sejam dependentes de álcool no país. Este levantamento produzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concluiu também que os 20% dos adultos que mais bebem ingerem 56% de todo o álcool consumido por adultos. A primeira edição do estudo foi divulgada em 2006. Os resultados do II Lenad foram obtidos através de entrevistas feitas com uma amostra com 4.607 moradores de 149 municípios brasileiros, sendo 9% deles menores de idade. Entre os adultos, um total de 54% dos entrevistados revelou consumir álcool regularmente, ou seja, uma vez por semana ou mais. Entre os participantes do estudo 52% são mulheres e 48% homens.

Em 2012, houve crescimento de 20% do consumo frequente de álcool, quando o indivíduo bebe uma vez por semana ou mais, em relação ao estudo de 2006, quando 45% das pessoas revelaram beber com regularidade. Quando diferenciada a ingestão de bebidas entre homens e mulheres, o percentual dos que consomem álcool com frequência entre os homens saltou de 56% para 64%, e entre mulheres de 29% para 39% da primeira para a segunda análise. Já na segmentação dos entrevistados entre as regiões do Brasil, o consumo de álcool regular revelou-se maior na região Sudeste onde saltou de 46% na pesquisa de 2006 para 60% em 2012. Os percentuais de pessoas que bebem frequentemente foram de 48% na região Nordeste que manteve-se estável em 2006 e 2012, 36% na região Norte que antes  marcava 33% e  55% no Sul onde o índice anterior era de 43% e 56% no Centro-Oeste, onde era de 40% em 2006.

Mulheres apresentaram maiores índices de aumento entre 2006 e 2012
Mulheres apresentaram maiores índices de aumento do consumo em binge entre 2006 e 2012

O modo de beber em binge (quando se consome 4 ou 5 doses de bebida no período de duas horas, uma vez ou mais por semana) o mais preocupante, também foi identificado separadamente na pesquisa, em indicadores por região e com diferenciação entre grupos de homens e mulheres. Este indicador marca uma importante diferença na região Nordeste, que não havia apresentado crescimento na porcentagem de indivíduos que bebiam regularmente, mas que apontou um enorme salto entre que bebem em binge. Em 2006, na região Nordeste, 43% bebiam em binge, este número cresceu para 72% em 2012. No Sudeste os índices foram de 41% para 56%, no Sul a porcentagem manteve-se estável em 50%, e no Centro Oeste também apresentou um grande salto, indo de 38% para 57% na comparação entre as pesquisas.

Segundo Dahlgren e Whitehead, o abuso de álcool tem forte impacto na geração de iniquidades em saúde. Vários estudos mostram que a situação econômica precária está fortemente associada com altos níveis de consumo de álcool, o qual é identificado como um importante mecanismo através do qual a tensão psicossocial é traduzida em saúde precária e mortalidade mais alta. Um trabalhador manual que venha trabalhar bêbado corre maior risco de ser despedido de seu trabalho e de experimentar um ciclo vicioso de saúde precária devido a desemprego, tensão econômica, aumento de problemas sociais e consumo de álcool. Portanto, há um efeito negativo duplo do consumo excessivo de álcool sobre as iniquidades sociais: homens de grupos socioeconômicos mais baixos tendem a beber mais que o resto da população e também sofrem um impacto negativo maior sobre a saúde para um nível dado de sobre consumo. A natureza do trabalho faz com que trabalhadores manuais sejam mais propensos a acidentes e traumatismos relacionados com o álcool. Outros elementos são as redes sociais de apoio, tanto no trabalho como em casa, que são capazes de amortecer e reduzir os efeitos negativos do abuso de álcool e que são mais precárias ou inexistentes no caso dos trabalhadores manuais.

Ainda sobre os resultados apresentados no Lenad, no que se refere ao gênero, a pesquisa concluiu que mulheres, especialmente as mais jovens, são a população mais vulnerável aos riscos, já que apresentou maiores índices de aumento entre 2006 e 2012, bebendo em binge.

Quanto à associação entre bebida e direção, o II Lenad mostrou que este tipo de infração apresentou queda da primeira para a segunda edição da pesquisa. Em 2006 a porcentagem dos que associavam bebida e direção era de 27,5%, no ano passado o índice caiu para 21,6%. Atualmente os homens lideram o ranking da irresponsabilidade ao volante atingindo a marca de 27,3% de motoristas que bebem e dirigem, quase quatro vezes mais que o percentual entre as mulheres, que é de 7,1%

O consumo de álcool em excesso traz, além do dano para a saúde da população, outros problemas sociais agregados à degradação causada pela compulsão pela bebida. Segundo a pesquisa, um em cada dez brasileiros possui arma de fogo, 5% dos homens andam armados e este número aumenta em mais de 50% entre homens jovens e com problemas relacionados ao uso do álcool. Ainda de acordo com o Lenad, quase dois terços dos homens jovens, bebedores problemáticos já se envolveram em uma briga com agressão física no último ano. A violência doméstica também teve sua abordagem relacionada ao uso do álcool. Segundo o estudo, 6% dos brasileiros disseram ter sido vítima de violência doméstica no último ano, em metade destes casos o parceiro que cometeu a agressão havia bebido.

Segundo dados de 2011 da OMS, o consumo de álcool excessivo no mundo é responsável por 2,5 milhões de mortes a cada ano. O percentual equivale à 4% de todas as mortes no mundo, o que faz com que o álcool se torne mais letal que a Aids e a tuberculose. A OMS também estima que 76,3 milhões de pessoas possuam diagnóstico do consumo abusivo de álcool.

De acordo com Dahlgren e Whitehead, a política mais eficiente para reduzir consumo de álcool é aumentar o preço e limitar sua acessibilidade. Outras opções de políticas desde uma perspectiva de equidade devem também dar conta de fatores sociais mais gerais responsáveis pelo abuso do álcool como o desemprego e a exclusão social e devem ser fortalecidos sistemas sociais de apoio no trabalho e na comunidade para reduzir o impacto negativo para saúde entre grupos de menor renda. Medidas de atenção aos dependentes da bebida, campanhas educativas e a fiscalização severa, principalmente no trânsito, são algumas das ações que também podem contribuir de forma efetiva para a redução de danos causados pelo descontrole no consumo de álcool no Brasil.

Dissociar diversão de exagero e combater a banalização e a irresponsabilidade com o esclarecimento contínuo e a insistente exemplificação dos estragos causados pela bebida, podem promover mudanças em uma sociedade vulnerável a bebida de forma claramente desigual.

* Para os homens, beber em binge, equivale ao consumo de cinco doses de bebida em um período de duas horas, uma vez por semana ou mais. Já para as mulheres, a relação é de quatro doses no mesmo período.

 

 

Referências Bibliográficas

Bassette F. Consumo abusivo de álcool no Brasil cresce mais de 30% em seis anos [Internet]. São Paulo: O Estado de S. Paulo; 2013 Abr 10 [acesso em 31 maio 2013]. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,consumo-abusivo-de-alcool-no-brasil-cresce-mais-de-30-em-seis-anos,1019329,0.htm

Brasileiros têm 4º maior consumo de álcool das Américas, diz OMS [Internet]. São Paulo: G1, 2011 fev 12; Ciência e Saúde. [acesso em 31 maio 2013]. Disponível em: http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2011/02/brasileiros-tem-4-maior-consumo-de-alcool-das-americas-diz-oms.html

Dahlgren G, Whitehead M. European strategies for tackling social inequities in health: Levelling up Part 2. Copenhagen: World Health Organization Regional Of?ce for Europe; 2007 [acesso em 31 maio 2013]. Disponível em: http://www.euro.who.int/document/e89384.pdf 

Laranjeira R, Madruga CS, Pinsky I, Caetano R, Ribeiro M, Mitsuhiro S. II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas – Consumo de Álcool no Brasil: Tendências entre 2006/2012. São Paulo: INPAD; 2013 [acesso em 31 maio 2013]. Disponível em: http://inpad.org.br/wp-content/uploads/2013/04/LENAD_ALCOOL_Resultados-Preliminares.pdf

 

 

 

 

 

25 Comentário

  1. Jaqueline, boa tarde. Estamos fazendo uma matéria sobre o crack na região de Jundiaí e gostaria de saber se há um levantamento atualizado de usuários no Brasil e nas cidades de Sao Paulo.

  2. Cara Sumara, entraremos em contato através de seu e-mail.
    Atenciosamente,
    Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

  3. Olá, Jaqueline. Para um trabalho de faculdade necessitamos descobrir a porcentagem de homens que utilizam drogas no RS, será que terias como me ajudar? Obrigada

    • Cara Maite Martin, faremos contato através de seu e-mail.
      Atenciosamente,
      Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

  4. BOM, NO BRASIL HOJE DE 100%, SÓ 1% NÃO USA DROGA. OS 99% QUE SOBRAM SÃO SIM USUÁRIOS DE DROGA…MAS SE OS 99% QUE RESTA COLABORAREM PARA PARAR A NÃO FABRICAÇÃO… O BRASIL TALVEZ FIQUE COM OUTRA CARA.

  5. Olá, Jaqueline, estou fazendo um trabalho de intervenção na cidade de Ipiaú, na Bahia.Se tem algum levantamento atualizado de 2014 sobre álcool e outras drogas em Ipiaú, Bahia, caso tenha como devo proceder? Confesso que estar complicado demais, são tantos não recebidos que doem a alma. Gostaria de saber se as famílias carentes daqueles que precisam ir para os centros de recuperação, geralmente particular já que é interior, se essas famílias recebem benefícios?
    Caso receba como funciona? Desde já muito obrigada, suas matérias me ajudaram bastante.

    • Prezada Marcia, farei contato através do seu e-mail. Ficamos felizes por poder colaborar com as reais intervenções sobre os DSS, através das análises e todo o material que publicamos.
      Muito obrigada pelo contato e pelo interesse.
      Jaqueline Pimentel

  6. Estou finalizando a minha pesquisa de doutorado pela UFG e queria mais informações estatística sobre o uso de drogas em Goiás (Goiânia).

    Obrigada.

    • Cara Sheila, faremos contato através de seu e-mail.
      Atenciosamente,
      Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

  7. Olá, parabéns pela matéria. Excelente!!!!
    Gostaria de informações sobre o uso de álcool e SPA em São luís -MA, para um trabalho que estou realizando no município.

  8. Olá boa noite, estou fazendo um projeto de pesquisa e agostaria de sabe se tem algum levantamento sobre álcool e violência entre jovens no estado do Rio Grande do Sul.
    Desde já agradeço.

    • Prezada Alice, entraremos em contato através de seu e-mail.

      Atenciosamente,

      Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

  9. Bom dia, gostaria de saber se tem um levantamento com gráficos sobre o índice de consumo de álcool no Brasil e estado do Amazonas? Atualizado.
    *Trabalho escolar.

    • Prezada Giselly, faremos contato através de seu e-mail.
      Atenciosamente,
      Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

  10. Boa Noite,
    Estou colendo arquivos para o meu trabalho de conclusão de curso e gostaria de saber se ja existe algum levantamento mais recente e se extiste algum que aborde somente o Rio de Janeiro.
    Obrigada e Parabéns pela excelente matéria.

    • Prezada Mariana, faremos contato através de seu e-mail.
      Atenciosamente,
      Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

    • Cara Hericka, agradecemos sua participação e interesse. Enviaremos mais informações através de contato pelo seu e-mail.
      Atenciosamente,
      Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

  11. Vocês possuem dados sobre a prevalência de idosos que fazem uso de álcool no Brasil e em Ribeirão Preto?

    • Prezado Deivson, agradecemos sua participação e interesse. Enviaremos mais informações por e-mail.
      Atenciosamente,
      Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

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