Lancet publica o estudo sobre a Carga Global de Doença 2010

THE LANCET trouxe número especialmente dedicado aos aos resultados do estudo sobre a Carga Global de Doença
THE LANCET trouxe número especialmente dedicado aos resultados do estudo sobre a Carga Global de Doença

A conceituada revista inglesa  THE LANCET publicou em 15 de Dezembro de 2012 um número (volume 380, número 9859) especialmente dedicado aos resultados do estudo sobre a Carga Global de Doença (GDB de Global Burden of Disease Study) de 2010. Segundo o resumo geral desse estudo, o GDB 2010 é o maior esforço já realizado para descrever a distribuição a nível global de uma grande variedade de doenças, lesões e fatores de risco. Os resultados mostram que as doenças infecciosas, enfermidades materno-infantil e a desnutrição causam agora menos mortes e doenças do que há vinte anos. Como consequência, menos crianças estão morrendo todos os anos, embora mais adultos jovens e de meia-idade estejam morrendo e sofrendo de doenças e lesões. As doenças não transmissíveis como câncer e doenças do coração são as causas dominantes de morte e incapacidade em todo mundo. Desde 1970, homens e mulheres em todo o mundo ganharam pouco mais de dez anos de expectativa de vida, mas vivem mais anos com lesões e doenças.

Este número do The Lancet dedicado ao CGD 2010 é composto por sete artigos, cada um contendo uma riqueza de dados sobre diferentes aspectos do estudo (incluindo dados de diferentes países e regiões do mundo, homens e mulheres, e diferentes faixas etárias). Além disso, há uma seção de comentários escritos por eminentes pesquisadores e autoridades como a Diretora Geral da OMS, Margaret Chan e o Presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim.

O Editor-Chefe da revista, Dr. Richard Horton, também escreve um artigo, onde diz que a publicação do estudo GBD 2010 é um marco para a revista e espera que o seja para saúde. Destaca que a colaboração de 486 cientistas de 302 instituições em 50 países produziu uma importante contribuição para a nossa compreensão das prioridades de saúde presentes e futuras para os países e para a comunidade global.

O GBD 2010 é um consórcio de sete parceiros: Universidade de Harvard, o Instituto de Métrica e Avaliação de Saúde (IHME) da Universidade de Washington em Seattle, a Universidade Johns Hopkins, a Universidade de Queensland, o Imperial College de Londres, a Universidade de Tóquio e a OMS. O GDB 2010 é a primeira avaliação sistemática e abrangente de dados sobre doenças, lesões e risco desde 1990. O estudo inicial foi encomendado pelo Banco Mundial e este último foi apoiado pela Fundação Bill & Melinda Gates. O projeto expandiu-se bastante desde sua primeira versão. Em 1990 foram avaliadas 107 doenças e lesões, juntamente com 10 fatores de risco. Em 2010, foram incluídas 235 causas de morte e 67 fatores de risco.

Quanto aos principais resultados, embora tenham ocorrido 52,8 milhões de mortes em 2010 (em 1990, o valor foi de 46,5 milhões), um grande progresso vem sendo observado na saúde da população mundial. A expectativa de vida para homens e mulheres está aumentando e uma proporção maior de mortes está ocorrendo em pessoas com mais de 70 anos, ao mesmo tempo em que há uma diminuição de mortes em crianças menores de cinco anos. As doenças infecciosas estão cada vez mais controladas e em algumas partes do mundo, tem havido um progresso substancial na prevenção de mortes prematuras por doenças cardíacas e câncer.

Entretanto, este quadro positivo vem sendo desafiado por antigas e novas ameaças. Enormes lacunas permanecem para algumas regiões do mundo. Estima-se que tuberculose e malária mataram cerca de 1 a 2 milhões de pessoas cada uma em 2010. Oito milhões de pessoas morreram de câncer em 2010, o que representa um terço a mais do que as mortes de 20 anos atrás. Uma em cada quatro mortes deveu-se a doença cardíaca ou acidente vascular cerebral. O diabetes foi responsável por um a três milhões de mortes e aquelas devidas aos acidentes de trânsito aumentaram em quase 50%. O aumento da pressão arterial é o maior fator de risco de doença, seguido pelo tabaco, álcool e má alimentação. Jovens adultos estão aparecendo como uma nova e negligenciada prioridade na saúde global. O GBD 2010 mostra que adultos jovens, especialmente homens, estão morrendo em números muito mais elevados do que o anteriormente. A África continua sendo o continente mais afetado, onde a mortalidade materna, neonatal e infantil, juntamente com uma ampla gama de doenças evitáveis por vacinação e outras doenças transmissíveis, permanecem como preocupações urgentes.

Ainda segundo o editor Holton, o GBD 2010 também chama a atenção para incapacidades como as causadas, por exemplo, por problemas de saúde mental, uso de drogas, doenças músculo-esqueléticas, diabetes, doença respiratória crônica, anemia e perda de visão e audição. A invalidez por doença e lesões vai se tornar um problema cada vez mais importante para todos os sistemas de saúde. Mais pessoas vão passar mais anos de suas vidas com mais doenças. As mulheres são especialmente afetadas pelas incapacidades.  Aquelas com idade entre 15-65 anos perdem mais tempo de vida saudável devido a incapacidades em comparação com os homens. Entretanto, a incapacidade tem sido quase ignorada como uma prioridade central de política durante a era dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Holton afirma que este estudo deve apoiar os esforços para melhorar a medição da saúde, especialmente o fortalecimento do registro civil e dos sistemas de estatísticas vitais nos países. Há também a perspectiva de que, em vez de a CGD ser um evento que ocorra a cada poucos anos, possa evoluir para um processo contínuo de revisão e atualização de dados, na medida em que estejam disponíveis novas e mais confiáveis informações, juntamente com melhores métodos. Os relatórios da GDB 1990 trouxeram mudanças significativas nas prioridades de saúde. Doenças não transmissíveis e especialmente a saúde mental, adquiriram justificadamente um maior destaque. O sucesso da CGD, então e agora, se fundamenta no fato de que permite avaliar de forma independente (e desapaixonadamente) as prioridades de saúde que os países devem enfrentar.

Entre os artigos publicados neste número do The Lancet especialmente dedicado ao GDB 2010, destacamos o de JA Salomon e outros intitulado “Expectativa de Vida Saudável em 187 países, 1990-2010: uma análise sistemática para o estudo GDB 2010”.

A expectativa de vida saudável (HALE do inglês Healthy Life Expectancy) combina a mortalidade e condições de saúde não fatais em uma única medida e tem sido utilizada para comparar a situação de saúde entre países ou para medir variações ao longo do tempo. É também de grande utilidade por fornecer evidencias para políticas que busquem enfrentar as mudanças da morbidade na medida em que a mortalidade diminui. Os autores analisaram os HALE atuais e as mudanças ocorridas nas últimas duas décadas em 187 países.

Entre os achados deste estudo os autores destacam que em 2010 o HALE mundial masculino ao nascer era de 58,3 anos enquanto o feminino era de 61,8 anos. O HALE aumentou mais lentamente do que a expectativa de vida ao longo dos últimos 20 anos, sendo que para cada aumento de um ano na expectativa de vida ao nascer observou-se para o HALE um aumento de 0,8 anos. O HALE do sexo masculino ao nascer em 2010 variou de 37,1 anos no Haiti a 68,8 anos no Japão. Para o feminino a variação foi de 37,1 anos no Haiti a 71,7 anos no Japão. Entre 1990 e 2010 o HALE masculino aumentou cinco anos ou mais em 42 países enquanto o feminino teve este mesmo aumento em 37 países. Neste mesmo período o HALE masculino diminuiu em 21 países e o feminino em 11. Tanto entre os países, como ao longo do tempo, a expectativa de vida foi positivamente relacionada com o número de anos perdidos com deficiências. Esta relação foi consistente entre os sexos, em análise transversal e longitudinal e quando a avaliação foi feita ao nascer ou na idade de 50 anos.

Os autores chamam a atenção para o fato de que este aumento da expectativa de vida acompanhado pelo aumento do número de anos saudáveis perdidos em razão de deficiências na maioria dos países tem sérias implicações para o planejamento e para o aumento de gastos com os cuidados de saúde. Os autores também observam que comparado com o importante progresso na redução da mortalidade ao longo das últimas duas décadas, relativamente pouca melhoria foi alcançada na redução do efeito de doenças não fatais e de lesões na saúde da população. Concluem que o HALE é um importante indicador para o monitoramento de saúde pós-2015.

 

Referência Bibliográfica

The Lancet. Global Burden of Disease Study 2010. 2012 Dez 13 [acesso em 17 dez 2012]. Disponível em: http://www.thelancet.com/themed/global-burden-of-disease

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