América Latina. “Há 20 anos, não tínhamos esse número de pessoas na extrema pobreza”. Entrevista com Maya Takagi

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A pandemia empobreceu milhões de latino-americanos e caribenhos. Com a pobreza, agravou-se a fome e a desnutrição. Maya Takagi, líder de Programas Regionais da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO, ressaltou que, no final de 2020, 30% da população da América Latina estava em situação de pobreza.

A pobreza aumentou para 209 milhões – 22 milhões de pessoas a mais do que em 2019, segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da ONU (CEPAL) -, em uma população de 670 milhões de pessoas.

Além disso, do total de pessoas pobres, 78 milhões passaram para a condição de extrema pobreza, 8 milhões a mais do que em 2019. Nas áreas rurais, a pobreza rural aumentou em 6 milhões de pessoas, quase metade delas em situação de extrema pobreza.

A entrevista é de Angelina de los Santos, publicada por Sputnik, 13-08-2021. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Verificamos que a crise sanitária efetivamente aumentou a pobreza e a extrema pobreza na região, e que levou a fome para quase os mesmos níveis de duas décadas atrás. Em sua opinião, quais foram as consequências sociais e econômicas mais graves do brusco aumento da fome e quais você prevê para o futuro próximo?

(…) Como a renda é a única forma de acesso à alimentação, houve um aumento da insegurança alimentar. A incidência de insegurança alimentar moderada ou grave atingiu 40,4% da população, em 2020, o que representa um aumento de 6,5 pontos percentuais em relação a 2019, segundo dados de 2021 da CEPAL. Sem as políticas em favor da renda e da alimentação, as taxas seriam ainda maiores.

Isso pode ser explicado pelo sério impacto da pandemia nos níveis de pobreza e emprego na região e pelo alto preço da alimentação. As condições econômicas, os desequilíbrios estruturais (renda, bens e recursos) e a falta de políticas abrangentes de proteção social são as principais causas da fome e desnutrição na região, que também interagem com desastres e crises que tornam mais difícil sair desse círculo vicioso.

As consequências são muito dramáticas. Além do aumento da perda de vidas por causa da fome, existem consequências de longo prazo para as famílias na recuperação de suas capacidades de renda, também no efeito das deficiências nutricionais e de saúde em pais e filhos, que afetam suas capacidades de trabalho e de educação.

É como retornar a um ciclo de vulnerabilidade, com consequências de longo prazo. É uma quebra na tendência de que os filhos tenham melhores condições de renda do que seus pais ou avós. E milhões de famílias agora estão nessa condição. Há 20 anos, não tínhamos esse número de pessoas na extrema pobreza. (…)

Em uma região onde antes da pandemia não faltava comida, mas dinheiro para comprá-la, como fazer com que as pessoas tenham acesso a uma dieta nutritiva, com menos dinheiro ainda do que antes?

No relatório mundial da FAO sobre o Estado da Segurança Alimentar no Mundo, o SOFI 2020, concluiu-se que as dietas saudáveis são cinco vezes mais caras do que as dietas suficientes em calorias. E também que a nossa região é a mais cara do mundo para a alimentação com dietas saudáveis.

Algumas razões que explicam essa desigualdade: problemas de disponibilidade, acessibilidade, oportunidade, educação e hábitos alimentares, inocuidade e variabilidade de preços de acordo com a sazonalidade.

Entre as medidas a serem implementadas:

– É preciso articular os programas de transferência de renda com educação alimentar, assim como outras medidas que favoreçam a maior disponibilidade de alimentos frescos e saudáveis;

– No marco das práticas de comércio regional e internacional, é necessário privilegiar alimentos nutritivos e negociar acordos que facilitem o comércio intrarregional;

– Outras medidas implicam em promover as compras públicas, comprar diretamente dos produtores, para assim encurtar as cadeias e diminuir os custos de logística;

– Estimular a utilização de meios digitais de comercialização de produtos de pequenas e médias empresas e de cooperativas locais.

Qual é o panorama regional para orientar a recuperação e o combate à fome? Quais deveriam ser os seus pilares?

O nível pré-pandemia seria alcançado em 2024, se o crescimento fosse de 1,8% (a média da última década), mas demorará 10 anos, se o crescimento for de 0,3% (a média dos últimos 6 anos).

Há cada vez mais vozes que apontam que a crise sanitária, econômica e social provocada pela pandemia é uma oportunidade para refletir sobre quais respostas são necessárias para sair de uma crise dessa envergadura. Por isso, ressaltou-se que para reconstruir melhor é preciso transformar o modelo de desenvolvimento da América Latina e o Caribe.

As medidas de recuperação imediata deveriam se concentrar em:

– Proteger os empregos existentes, criar empregos novos;

– Fortalecer a rede de proteção social, seja por meio de investimento direto ou políticas.

Para a recuperação do emprego, é fundamental resgatar as micro e pequenas empresas, que representam mais de 99,5% das empresas da região, e geram 60% do emprego produtivo formal (CAF, Banco de Desenvolvimento da América Latina) com políticas de fomento e apoio direto.

Além disso, as medidas de proteção sanitária e social deveriam se concentrar nos trabalhadores do setor informal, formado principalmente por mulheres, jovens, povos indígenas e migrantes, segundo dados da ONU. Assim como também é fundamental manter os programas de alimentação para crianças, idosos e outras pessoas em situação de vulnerabilidade, privilegiando a compra pública de alimentos saudáveis e perecíveis de pequenos produtores agrícolas e pescadores artesanais da região.

(…) As políticas e investimentos deveriam facilitar a igualdade de acesso às tecnologias, ferramentas e plataformas da informação e comunicação (TIC). (…)

Por último, garantir que os sistemas alimentares continuem funcionando, protegendo a produção de alimentos, passando pela comercialização, o processamento e o mercado local até chegar ao consumidor, valorizando produtos frescos para garantir uma dieta saudável e produzidos em equilíbrio com o meio ambiente.

Isso é fundamental para se ter uma sociedade saudável, resiliente e mais protegida contra doenças de diferentes naturezas. Para aumentar a resiliência dos sistemas agroalimentares, a recuperação deveria incorporar aspectos transformadores.

Como avalia os planos de auxílio até agora empreendidos pelos governos da América Latina e o Caribe?

Graças a uma resposta política sem precedentes, é provável que a recessão da Covid-19 deixe cicatrizes menores, em nível mundial, do que a crise financeira de 2008. No entanto, dessa vez os países de baixa renda e as economias emergentes sofrem mais em comparação com as economias avançadas, mais afetadas na crise de 2008, segundo o Fundo Monetário Internacional.

Os Governos da região implementaram 263 medidas de proteção social de emergência em 2020. Estas alcançaram 49,4% da população, ou seja, cerca de 326 milhões de pessoas, com um gasto adicional estimado em 86 bilhões de dólares (CEPAL). Sem essas medidas, a incidência da extrema pobreza teria alcançado 15,8% e a pobreza, 37,2%, o equivalente a 98 milhões e 230 milhões de pessoas, respectivamente. (…) Graças a esse conjunto de medidas, em 2020, cerca de 20 milhões de pessoas escaparam de ficar abaixo da linha da pobreza na região.

O que acontece na América Central e o Caribe, onde vários países já antes da pandemia tinham sérias dificuldades para alimentar sua população?

Uma pesquisa do Programa Mundial de Alimentos demonstra que, no final de 2020, o consumo insuficiente de alimentos atingia 16% da população desses países. A principal barreira para acessar os mercados de alimentos nesses países, no contexto da pandemia, foi a falta de dinheiro, seguida pelas restrições de viagem e a distância física dos mercados.

Além disso, em resposta às restrições da pandemia, cerca de 40% das famílias aplicaram estratégias de crise no consumo alimentar, tais como mudar a dieta para alimentos mais baratos, limitar o tamanho da porção, reduzir o número de refeições, pedir alimentos emprestados ou restringir a alimentação dos adultos em favor dos menores (Bolívia, Colômbia, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua, Peru e República Dominicana).

Além do agravamento recente da insegurança alimentar, há vários anos, esses países lidam com uma dupla carga de subalimentação, na qual a desnutrição (…) coexiste com o sobrepeso, a obesidade e as doenças não transmissíveis relacionadas ao regime alimentar. A soma desses fatores estruturais (…) e o agravamento dos problemas de acesso a alimentos saudáveis – seja por restrições de renda ou pela interrupção de cadeias de abastecimento e dos programas públicos de alimentação (escolar, por exemplo) – têm um impacto nos regimes de alimentação regionais e na saúde da população que vai além do curto prazo.

(…) No Caribe em especial, o setor turístico, que é um suporte essencial da economia dos países, foi fortemente afetado pela pandemia e atingiu toda a cadeia de valor, da produção de alimentos à importação e os empregos diretos, deixando as famílias mais vulneráveis.

No entanto, após os primeiros meses de pandemia, quando houve insegurança, os países da região puderam confirmar importações de alimentos e avançar na abertura do comércio. Observamos também maior vontade política em aprofundar o comércio agroalimentar intrarregional, o que ajudaria a tornar os países importadores mais resilientes, pois teriam vários parceiros comerciais.

Por Instituto Humanitas Unisinos – IHU . 18/05/2021

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