O abismo entre o saber e o fazer: a experiência do município de Piripiri com o Núcleo de Evidências em Saúde no planejamento de política em saúde

Academia da Praça/ Foto: Prefeitura de Piripiri

Para que serve o conhecimento científico? Qual seu uso na formulação e implementação de políticas em saúde? De um lado estão os pesquisadores, que para muitos são acumuladores de conhecimentos intangíveis ou utópicos, com grande chance de serem “engavetados” por falta de uso. Do outro, estão os tomadores de decisões e gestores em saúde que precisam dessas evidências científicas traduzidas para aplicarem em sua realidade local. Embora haja um vácuo na comunicação entre as partes, a Organização Mundial de Saúde afirma que esse processo de interação entre produtores e potenciais usuários da ciência precisa mudar, pois o uso de evidências científicas em políticas de saúde tem o potencial de aperfeiçoar os sistemas de saúde, tornando as ações mais efetivas, produzindo equidade e melhora na qualidade de vida da população.

Atualmente a questão parece residir na falta de trânsito entre a teoria e a prática em si, na superação do abismo entre o saber e o fazer no âmbito das políticas de saúde e na gestão dos sistemas de saúde, públicos ou privados. Essa ponte entre o proposto e o implementado se mantém como um grande desafio contemporâneo endereçado aos governos e sociedades, sendo inclusive um dos objetivos da Conferência Mundial sobre Determinantes Sociais em Saúde (CMDSS), que acontecerá ainda no mês de outubro na cidade do Rio de Janeiro.  Implementar e aplicar são as palavras de ordem da CMDSS, que reforça a ideia e a importância de como “colocar em prática” as recomendações baseadas em evidências para redução das iniquidades sociais em saúde.

“Nos últimos anos foram várias as iniciativas de promoção e implementação de estratégias de tradução do conhecimento e intercâmbio entre produtores e usuários de evidências científicas”, explicam Barreto e Souza em seu artigo no periódico Ciência e Saúde Coletiva. Uma das iniciativas citadas pelos autores é o relatório mundial da saúde da OMS de 2012, cujo tema é “No Health without Research”, que defende um investimento intenso em pesquisa científica e seu uso em políticas de saúde. Barreto e Souza reforçam em seu discurso que devem ser estabelecidos e fortalecidos os mecanismos de transferência de conhecimento para apoiar a saúde pública, com sistemas e políticas de saúde fundamentados em evidências. Estratégia esta que já é utilizada no Canadá através do programa “Health evidence”, onde as melhores evidências científicas são usadas para sustentar os alicerces dos programas e serviços de saúde públicos, transformando pesquisa em ação.

Os autores relatam que políticas e serviços de saúde baseados em evidências são uma tendência mundial na busca de melhores resultados com recursos limitados, principalmente nos países em desenvolvimento, onde estruturação e expansão de sistemas e serviços de saúde ainda se fazem necessários. Um exemplo de experiência bem-sucedida relatado por eles e foco central do seu artigo, foi a que ocorreu em Piripiri, no Piauí, onde a criação de um Núcleo de Evidências em Saúde (NEv) favoreceu efetivamente a troca entre produtores e usuários de evidências científicas. O projeto desenvolvido foi pioneiro na capacitação de pessoal no Brasil e instituiu um elo entre a teoria e a prática, pois viabilizou a definição de problemas com a identificação de intervenções para enfrentá-los, possibilitou a avaliação da qualidade das evidências globais e locais que foram traduzidas para os principais interessados, levando em conta valores sociais e leis vigentes.

“O estímulo à dinâmica de apropriação social do conhecimento, especialmente em regiões economicamente desfavorecidas, deve associar a disponibilidade de recursos locais com os valores e interesses sociais mais influentes dos tomadores de decisões”, refletem os autores. Porém, existem barreiras a serem transpostas nesse intercâmbio de informações, como a capacidade das organizações e dos formuladores de políticas em acessar o conhecimento disponível e utilizá-lo de forma transparente, sistemática e adequada. Barreto e Souza explicam que é imprescindível a “tradução” das evidências para torná-las mais “palatáveis” aos usuários, de maneira que sirvam de subsídio para a tomada de decisões, superando de alguma forma as barreiras e as desconfianças mútuas entre tomadores de decisão e pesquisadores, além de outras incompatibilidades de várias naturezas.

Essa ‘tradução do conhecimento’ deve ser um processo dinâmico e interativo que inclui síntese, disseminação, intercâmbio e aplicação ética do conhecimento para melhoria da saúde de indivíduos e populações através da provisão de serviços e produtos efetivos na saúde. Para os autores, faz parte das competências do gestor de políticas de saúde contemporâneo a capacidade de formular as perguntas certas diante de um problema concreto, compreender e utilizar os critérios de evidência, avaliar a qualidade das evidências disponíveis, implementar mudanças e avaliar o impacto destas ações.

No caso de Piripiri, as evidências subsidiaram a formulação de programa local de promoção da saúde focada na atividade física como facilitadora da mudança do estilo de vida, denominada “Academia na Praça”. A primeira síntese de evidências produzida pelo NEv abordou um problema de grande relevância para a saúde local, relacionado com as doenças do aparelho circulatório decorrentes do estilo e hábitos de vida, responsáveis por 48% dos óbitos no município ocorridos entre 2005 e 2010. Foram, então, avaliadas as melhores evidências disponíveis a partir de revisões sistemáticas de boa qualidade que indicaram a prescrição de atividade física aeróbica para pacientes portadores ou sob risco de doenças cardiovasculares e a promoção, em nível comunitário, da prática de exercícios aeróbicos sob supervisão profissional para a população em geral.

O bem-sucedido projeto do Núcleo de Evidências de Piripiri, figura como exemplo de como formular a nível municipal políticas de saúde seguras, responsáveis e efetivas, informadas pelas melhores evidências científicas disponíveis, e que podem se prestar à ampliação das ações no Brasil e exterior, e que apesar de ainda não apresentar dados palpáveis, o monitoramento preliminar demonstra resultados promissores e estimulantes.

Fundamentalmente, temos que entender que decisões no âmbito da gestão e das políticas em saúde sem o suporte de evidências em geral não produzem impactos sobre a saúde da população. Além disso, modelos de gestão em saúde não pautados em evidências podem ser entendidos como um fenômeno que aglutina diferentes efeitos nocivos à sociedade, incluindo a perda de oportunidades de melhorar as condições de saúde a partir do emprego inadequado de recursos humanos e financeiros, resultando em desperdício do financiamento público.

O uso sistemático da ciência nas políticas de saúde não é um luxo, mas uma necessidade. Quanto menos recursos temos disponíveis para enfrentar os problemas de saúde pública, mais necessitamos de evidências para identificarmos as melhores opções, as que mais beneficiarão nossas populações. O trabalho conjunto de cientistas e tomadores de decisão é um desafio relevante e atual e a capacidade de ‘fazer-juntos’ de ambos os lados e nos diversos níveis de gestão é fundamental para a ação e redução de iniquidades em saúde.

Referências Bibliográficas

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