O padrão de consumo de bebidas alcoólicas na região Nordeste do Brasil

O consumo de bebidas alcoólicas é um comportamento aceito na maioria das culturas. A Organização Mundial da Saúde estima que 2 bilhões de pessoas no mundo consumam bebidas alcoólicas e 76,3 milhões possuam diagnóstico de seu consumo abusivo. Nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, as bebidas alcoólicas são um dos principais fatores de risco para morbimortalidade, o que representa uma proporção de 8 a 15% do total de problemas de saúde dessas nações (World Health Report, 2002). O consumo abusivo do álcool é responsável por cerca de 3% de todas as mortes que ocorrem mundialmente, incluindo desde cirrose e câncer hepático até acidentes, quedas, intoxicações, violência doméstica e homicídios (Meloni e Laranjeira, 2004). No Brasil, entre 2006 e 2010, o consumo abusivo de álcool cresceu 11% (VIGITEL), e já pode ser considerado um grave problema de saúde pública, que se relaciona com diversos agravos à saúde.

De acordo com o I Levantamento Nacional sobre padrões de consumo de álcool na população Brasileira, realizado em 2007, 52% dos brasileiros acima de 18 anos ingerem bebidas alcoólicas pelo menos 1 vez ao ano, sendo 65% homens e 41% mulheres. Cerca de 48% dos brasileiros reportaram que nunca bebem ou que bebem menos de 1 vez por ano. No grupo dos adultos que bebem, 60% dos homens e 33% das mulheres consumiram 5 doses ou mais na vez em que mais beberam no último ano. Entre os homens adultos, 11% bebem todos os dias e 28% consomem bebida alcoólica de 1 a 4 vezes por semana.

O mesmo levantamento mostrou que, embora a maior porcentagem de pessoas que bebem esteja nas classes A e B e na Região Sul, é nos Estados das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, e na classe E, que se consome o maior número de doses a cada vez que se bebe, principalmente com consumo de bebidas alcoólicas destiladas. Esses resultados são reforçados pelos dados do VIGITEL que foram analisados por Alcides Carneiro e colaboradores do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP/ Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro), e apresentados anteriormente em nosso Observatório. Segundo os autores, as capitais brasileiras com maior crescimento do consumo abusivo de álcool foram Belém (23%), São Paulo (19%) e Recife (17%), sendo que as maiores frequências desse hábito foram encontradas em Recife (25,2%) e Salvador (24,0%).

Além de se avaliar a frequência com que se ingere bebidas alcóolicas, é importante também conhecer o seu consumo numa única ocasião. Consta no I Levantamento Nacional que é na quantidade de doses tomadas em um único dia que o beber como lazer pode se transformar em uso nocivo do álcool, com danos para a saúde que vão desde a exposição a doenças ao risco de acidentes graves. É na nuance nos padrões de consumo de bebidas alcoólicas de uma população que reside as diversas consequências sociais decorrentes do consumo elevado episódico do álcool.

A OMS e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos definem como consumo moderado de álcool a ingestão de uma dose/dia para as mulheres e duas doses/dia para os homens. A ingestão de doses diárias acima desse padrão é considerada prejudicial e representa risco para a saúde dos indivíduos. Segundo o Inquérito Domiciliar sobre Comportamentos de Risco e Morbidade Referida de Doenças e Agravos não Transmissíveis, Conprev/INCA/MS (2002-2003), o consumo também varia por gênero. Em todas as capitais, um percentual significativamente maior de homens, em relação a mulheres, relatou ter consumido bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias. Essa razão variou de 1,4 vezes em Porto Alegre a 2,6 vezes em Manaus. As capitais das regiões Norte e Nordeste foram as que apresentaram as maiores razões de prevalência de consumo atual entre homens e mulheres.

Um estudo seccional retratou o perfil do consumo de bebidas alcoólicas e fatores associados a esse hábito em um município do Nordeste do Brasil. Ferreira e colaboradores relataram que a maior frequência e quantidade de uso de álcool estão entre os homens, quando comparados com as mulheres, e entre os jovens quando comparados com os adultos e os idosos. Em relação à escolaridade e à renda, observou-se uma distribuição mais complexa, na qual o consumo revelou-se mais elevado nos grupos de maior escolaridade, bem como nos de maior renda. No entanto, o relato de problemas relacionados ao consumo aparece mais nos grupos de menor escolaridade, que provocam prejuízo a si mesmo ou a outrem pelo menos alguma vez na vida. A ocorrência do padrão de consumo pesado episódico de álcool (binge drinking – acima de 5 doses para os homens e 4 doses para as mulheres) foi algo marcante nesse município do estado da Bahia. É importante lembrar que o beber pesado episódico está associado a mais e maiores problemas físicos, sociais e mentais do que padrões de consumo mais regulares.

Segundo Whitehead, o abuso de álcool tem forte impacto na geração de iniquidades em saúde. Vários estudos mostram que a situação econômica precária está fortemente associada com altos níveis de consumo de álcool, o qual é identificado como um importante mecanismo através do qual a tensão psicossocial é traduzida em saúde precária e mortalidade mais alta. Para um determinado nível de excesso de consumo, as consequências nocivas à saúde podem ser maiores para trabalhadores manuais em comparação com outras profissões. Homens dedicados a trabalhos manuais não especializados tem susceptibilidade aumentada aos efeitos prejudiciais do álcool, o que pode ser explicado por diferenças nos hábitos de beber (binge drinking é mais comum entre eles) e pelas redes de proteção social. Além disso, a natureza do trabalho faz com que trabalhadores manuais sejam mais propensos a acidentes e traumatismos relacionados com o álcool.

Também segundo Whitehead, um importante elemento são as redes sociais de apoio, tanto no trabalho como em casa, pois são capazes de amortecer e reduzir os efeitos negativos do abuso de álcool. Um trabalhador manual que venha trabalhar bêbado corre maior risco de ser despedido de seu trabalho e de experimentar um ciclo vicioso de saúde precária devido a desemprego, tensão econômica, aumento de problemas sociais e consumo de álcool. Há, portanto um efeito negativo duplo do consumo excessivo de álcool sobre as iniquidades sociais: homens de grupos socioeconômicos mais baixos tendem a beber mais que o resto da população e também sofrem um impacto negativo maior sobre a saúde para um determinado nível de sobre-consumo.

Para Meloni e Laranjeiras, a avaliação do custo social relacionado ao álcool demonstra que o ambiente social no qual o álcool é consumido, conforme sua estruturação econômica e regras de convívio, determina diversos matizes de inserção do consumo alcoólico, ao mesmo tempo em que é diretamente influenciado pelos padrões de uso vigentes. Ou seja, traços culturais e variáveis socioeconômicas, como renda e escolaridade, andam a par e passo com o perfil de consumo de bebidas alcoólicas. Os autores afirmam que os problemas envolvidos no consumo de bebidas alcoólicas crescem à medida que as nações se desenvolvem e, ao mesmo tempo, o consumo do álcool passa a ser um dos principais fatores limitantes do desenvolvimento social e econômico dessas nações.

Uma agenda de políticas públicas que contemple a elaboração de intervenções de fiscalização e controle social das bebidas alcoólicas se faz necessária no Brasil. Ações com um maior enfoque em jovens de 18 a 24 anos, que são os que mais bebem, são fundamentais. Além de medidas para reduzir o consumo de álcool como aumento do preço e barreiras à sua acessibilidade. Outras opções de políticas desde uma perspectiva de equidade devem também dar conta de fatores sociais mais gerais responsáveis pelo abuso do álcool como o desemprego e a exclusão social. O acesso ao tratamento precisa ser ampliado e devem ser fortalecidos sistemas sociais de apoio no trabalho, na família e na comunidade para reduzir o impacto negativo para saúde entre grupos de menor renda.

Referências Bibliográficas

Dahlgren G, Whitehead M. European strategies for tackling social inequities in health: Levelling up Part 2. Copenhagen: World Health Organization Regional Office for Europe; 2007. (Studies on social and economic determinants of population health, No. 3). [acesso em 15 mar 2013]. Disponível em: http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0018/103824/E89384.pdf

Ferreira LN, Sales ZN, Casotti CA, Bispo Júnior JP, Braga Júnior AC. Perfil do consumo de bebidas alcoólicas e fatores associados em um município do Nordeste do Brasil. Cad Saúde Pública [periódico na internet]. 2011 [acesso em 15 mar 2013];27(8):1473-86. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2011000800003. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011000800003.

Laranjeira R, Pinsky I, Zaleski M, Caetano R, organizadores. I Levantamento Nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira. Brasília: Secretaria Nacional Antidrogas; 2007 [acesso em 15 mar 2013]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/relatorio_padroes_consumo_alcool.pdf

Meloni JN, Laranjeira R. Custo social e de saúde do consumo do álcool. Rev Bras Psiquiatr [periódico na internet]. 2004 Maio [acesso em 15 mar 2013];26 Suppl 1:S7-10. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462004000500003. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462004000500003.

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2 Comentário

  1. Muito interessante o texto!
    De fato é necessário se criar estratégias, pois é hj um problema de saúde pública, a quantidade jovens usando em quantidade abusiva é lastimável.

  2. A estabilidade da economia gerou um país dos beberrões tenho certeza que vai virar um caus nacional, creio que está um pouco tarde para fazer alguma coisa. Os bêbados não dão rendimento no trabalho. Só Deus poderá fazer algo. Os políticos pegam dinheiro das indústria de bebidas jamais vão combater só quero ver o que vai dar.

    Beto

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