Como o modo de viver do carioca se relaciona com a produção da saúde ou da doença

Imagem: Christian Knepper / Embratur/ Ministério do Turismo

O conceito de hábitos saudáveis e promoção de saúde foi o tema do texto desenvolvido por Alcides Carneiro e colaboradores do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP/ Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro) para o Portal e Observatório sobre Iniquidades em Saúde. Os autores analisaram dados referentes à cidade do Rio de Janeiro e mostram como o “modo de viver” do carioca pode se relacionar com a produção da saúde ou da doença, enfatizando características como o hábito de fumar, excesso de peso, obesidade, padrão de alimentação, atividade física, consumo de bebidas alcoólicas, auto-avaliação de saúde, diagnóstico médico de hipertensão arterial e diabetes.

Para os autores, esses fatores assumem cada vez mais importância no cenário de adoecimento e mortalidade em relação às doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). Por isso, afirmam que a vigilância e monitoramento dos fatores de risco e proteção, como o que vem sendo realizado desde 2006 pelo Ministério da Saúde, o VIGITEL, funciona como uma estratégia possível para produção de conhecimentos e mobilização da sociedade para modificação de hábitos e estilos de vida “não saudáveis”.

Os dados analisados pelos autores do IPP/RJ foram originários do monitoramento dos fatores de risco e proteção para doenças crônicas através de inquérito telefônico (VIGITEL). Os períodos de monitoramento foram entre 2006 e 2010, e a população estudada foi de adultos, com 18 anos ou mais de idade, residentes em uma das capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal.

Com relação ao tabagismo, em geral, os homens ainda estão presentes em maior proporção que as mulheres, apesar da tendência de queda da prevalência do hábito de fumar entre 2008 (15%) e 2010 (13%). Entre as pessoas que fumam 20 ou mais cigarros por dia, a proporção de homens (6,3% na média do período) supera as mulheres (4,7%), com uma diferença significativa de 35%. No entanto, o consumo de 20 cigarros ou mais entre as mulheres aumentou de 3,8 para 5%. Segundo os autores, outra situação interessante é observada entre os ex-fumantes, pois a proporção de mulheres que pararam de fumar cresceu 2,1% enquanto para homens este aumento foi de 23,3%, fato que indica que os homens estão reduzindo o hábito de fumar, enquanto entre as mulheres este hábito se mantém. As maiores frequências do tabagismo se concentraram nas idades de 35 a 64 anos e de ex-fumantes para quem tem 45 anos ou mais.

No que diz respeito ao excesso de peso, é mais prevalente entre os homens e atinge mais da metade desse grupo (52,6%). No entanto, independente do sexo, observa-se o crescimento de pessoas com excesso de peso, principalmente entre os indivíduos entre 55 e 64 anos. Essa tendência de crescimento claramente se apresenta maior na cidade e entre as mulheres em comparação com os homens. Alcides Carneiro e colaboradores ressaltam que as mulheres cariocas estão fumando mais e com maiores prevalências de obesidade – condições de risco direto para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Os autores também avaliaram o padrão alimentar, analisando a proporção de pessoas que consumem frutas ou sucos, hortaliças, carnes com gordura visível, leite com teor integral de gordura, refrigerantes não diet, em cinco ou mais dias da semana e da proporção de indivíduos com consumo recomendado. Na média de consumo de 2006 a 2010, o hábito de ingestão de frutas e sucos de frutas entre as mulheres (57%) foi aproximadamente 10% superior a dos homens (47%), e essa tendência ocorreu principalmente na maior faixa etária. Ou seja, quanto maior a idade, maior a proporção dos que se alimentam melhor. As variações do consumo de hortaliças entre as idades e em cada ano estudado foram grandes, apontam os autores, sugerindo que o consumo cresce conforme o aumento da idade. Um quarto dos entrevistados cariocas referiu consumo de refrigerantes cinco ou mais dias da semana. A ampliação do consumo de refrigerantes é expressiva, dobrando no período e foi ainda maior entre as mulheres. Os autores alertam que as mulheres apresentaram, em geral, melhor participação de alimentos saudáveis na sua dieta, mas os homens parecem avançar na melhoria dos seus hábitos. Entretanto, os dois ainda estão longe de padrões mais equilibrados de alimentação. (ver indicador 010403 do Observatório)

O VIGITEL considera a prática de atividade física regular o exercício de intensidade leve ou moderada de pelo menos 30 minutos por dia em cinco ou mais dias da semana ou pelo menos 20 minutos diários de atividade de intensidade vigorosa em três ou mais dias da semana. Os dados analisados mostraram que a prática de atividades físicas suficientes no lazer (lazer ativo) decaiu, primordialmente entre os homens. Mesmo assim, eles ainda se exercitam mais do que as mulheres. Além disso, para quem tem de 18 a 24 anos de idade a prática de atividade física é maior e reduz até os 44 anos e parece recuperar terreno a partir dos 55 anos. A proporção de indivíduos fisicamente inativos, ou seja, que não praticam qualquer atividade física no tempo livre e não realizam esforços físicos intensos no trabalho, ou não são responsáveis pela limpeza pesada da casa, praticamente não se alterou, permanecendo na faixa dos 15%. Ademais, o maior sedentarismo foi encontrado entre as mulheres.

Outro hábito observado entre os cariocas foi o consumo abusivo de bebidas alcoólicas, que cresceu 11,4% entre 2006 e 2010 em função do aumento do consumo entre as mulheres. A média masculina ainda é o dobro da feminina, embora as mulheres mostrem crescimento desse consumo durante o período supracitado. Com relação à faixa etária, os dados apontam que à medida que aumenta a idade diminui a proporção de consumo abusivo de álcool.

Conforme explicam os autores, no município do Rio de Janeiro, embora os esforços na promoção de saúde tenham se constituído em política pública estruturada, a dimensão política está fortemente associada à prevenção de fatores risco em populações vulneráveis como homens jovens (na prevenção a violências) e população negra. A ação intersetorial está predominantemente orientada para o controle de práticas e hábitos cotidianos saudáveis como alimentação, atividade física e uso de drogas lícitas ou ilícitas.

Alcides Carneiro e colaboradores relatam que as diferentes possibilidades de consumo – de alimentos e práticas – são determinadas por condições sociais, econômicas e culturais. Ressaltam que nessa balança de determinantes, todos os esforços para a legitimação da promoção de saúde devem ser orientados no sentido da formulação de políticas públicas saudáveis, o estímulo à criação de ambientes favoráveis à saúde, o fomento ao empowerment, reorientação dos serviços de saúde, e massificação de comportamentos pessoais saudáveis. Além disso, reforçam que a saúde deve estar voltada também para a eliminação das desigualdades sociais que interferem no processo saúde doença.

*O artigo de Alcides Carneiro ainda apresenta uma analise comparativa dos resultados da cidade do Rio de Janeiro com Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, São Paulo e Distrito Federal, que serão apresentados em breve.

*Imagem da home: Christian Knepper / Embratur/ Ministério do Turismo

 

Referências Bibliográficas

 

Carneiro A, Espias SF, Iozzi R. Análise dos fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico e a trajetória da integração do conceito de hábitos saudáveis no âmbito da política pública de saúde no município do Rio de Janeiro. Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP/ Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro). [acesso em 16 jan 2013]. Disponível em: https://dssbr.ensp.fiocruz.br/wp-content/uploads/2013/01/VIGITEL-RIO-v4a-alcides.pdf

Ind010403 – Taxa de prevalência do consumo recomendado de frutas e verduras, por ano, segundo região e escolaridade [Internet]. Rio de Janeiro: Portal Determinantes Sociais da Saúde. Observatório sobre Iniquidades em
Saúde. CEPI-DSS/ENSP/FIOCRUZ; 2012 Jan 30 [acesso em 16 jan 2013]. Disponível em: https://dssbr.ensp.fiocruz.br/wp-content/uploads/2012/03/Ind010403-20120130.pdf

 

 

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